dezembro 03, 2008

Irlanda: A Música (1)

Sean-nós, literalmente, significa "old-style", e refere-se geralmente à elevada ornamentação do canto em língua irlandesa (o Gaeltacht) do Connemara, no Oeste da Irlanda: uma arte que persiste desde há séculos e que é ainda, mesmo actualmente, constantemente renovada. Um dos cantores, um homem aí dos seus 80 anos, está sentado a uma fogueira de turfa. Outro velho homem, talvez irmão, está ao seu lado, atento. À medida que aquele canta, a sua voz desfaz-se em pedaços, em notas altas. São pontos num mapa linear; e pode-se pensar que a linha de uma canção sean-nós é como uma dessas estradas pedregosas do Connemara, serpenteando entre muros de pedra, casarões antigos e em ruínas e bungalows recentes:
Your songs, when you sing them with two eyes closed/As you always do, are like a local road/ We`ve known every turn of in the past -
tal como Seamus Heaney escreveu em The Wellhead. Os olhos do cantor do Connemara estão abertos; mas ele está absorto na distância, muito para lá do presente - olhando directamente para o passado, visitando outra vez, pessoalmente, as circunstâncias da canção. E enquanto o inclina os olhos para a paisagem, interrogando-a, o companheiro prende as suas palavras nos lábios, como um viajante silencioso. Os seus olhos fecham-se. Então, o velho cantor chega ao fim da história. Ao ouvir The Wellhead, imaginei os olhos das mulheres cegas do poema, os quais podiam ver o céu reflectido no fundo do poço do vizinho.

A imagem do poeta e do músico cegos é antiga. Os antigos bardos irlandeses eram obrigados a deitarem-se na escuridão, nas sombras, com uma pedra a fazer de almofada, até que tivessem acabado de compor o seu poema, cujos versos entrecruzavam padrões de um tapete oriental traduzido em palavras. O famoso O ´Carolan, tocador de harpa, compositor, bebedor, era cego. A poesia e a música contemplam a paisagem. Elas prosseguem lado a lado através dela. Diz-se que toda a música tradicional irlandesa aspira à condição do sean-nós. Esta é uma generalização, mas há nela laivos de verdade. As cadências lentas - por oposição à música de dança - devem atender às palavras não proferidas da canção à qual estão ligadas; e o som do canto (no qual a melodia é tocada com as uilleam pipes) deve ser pensado como o mais próximo da voz humana.

3 Comments:

Anonymous Leonardo said...

Belíssima fotografia que me traz à recordação os açores.

12:58  
Anonymous Leonardo said...

Açores, claro...

12:58  
Anonymous Anónimo said...

obrigado, um abraço rc

12:59  

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