agosto 10, 2007

Veneza: Luz de Inverno, de Brodsky e de Bellini

Veneza; a Laguna vista da Isola de San Clemente; Dez.2006 (photo by RC)
Joseph Brodsky regressou repetidamente a Veneza durante 17 anos, sempre no Inverno. Evitou o Verão: não se dava com o calor nem com as arritmias de gente; além disso era - como refere - do Norte (do Báltico, da Rússia), o que de certa forma entronca com a estação abstracta, porque no Inverno é tudo mais cru. Mas também era uma questão de aparência física, de indumentária, mais consonante com a escolha da beleza e as cores pardas e austeras da laguna. «Nesta cidade os corpos, mesmo os mais bem dotados, devem a meu ver andar cobertos de tecido, quanto mais não seja porque se movem»; é que «a beleza circundante é tal que sentimos logo um incoerente desejo animal de a imitar, de estar à sua altura. Isto nada tem a ver com a vaidade, nem como o natural excesso de espelhos que aqui encontramos, sendo o príncipal a própria água. Acontece simplesmente que a cidade oferece aos bípedes uma noção de superioridade visual inexistente nas suas tocas naturais, nos seus poisos costumeiros. É por isso que aqui as peles voam, como voam a camurça, a seda, o linho, a lã e qualquer outro tipo de tecidos».

É ainda guiados pelo Watermark, de 1992 (Marca de Água. Trad. de Ana Luísa Faria. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993), que seguimos através das fachadas, do mármore e do tijolo recônditos, das janelas góticas ou mouriscas, dos nichos tornados mais fundos, dos canali interiores, quase presos numa noite assustadora, dos querubins e dos anjos nas paredes, das estátuas em Campo dei Mori, dos reflexos na água espessa, castanha, que inunda as escadarias baixas dos palazzi, numa «imagem a preto e branco, como convém ao que brota da literatura, ou do Inverno; aristocrática, escura, fria, mal iluminada, com acordes de Vivaldi e Cherubini por pano de fundo, e por nuvens de corpos femininos drapejados à maneira de Bellini/Tiepolo/Ticiano». De manhã, a luz assenta numa espécie de vibração conjunta de todos os sinos que tocam para lá do céu que não se vê, porque, por momentos, Veneza desaparece, visualmente, para ser substituída pelo eco dos campanários que cruzam San Marco e o Campo de San Polo, como se vibrasse «um gigantesco serviço de chá de porcelana, sobre uma bandeja de prata». E ao fim da tarde «segreda-nos a luz de Inverno, detida no seu curso pela parede de tijolo de um hospital ou chegando ao destino, o paraíso do frontone de San Zaccaria, depois da sua longa travessia através do cosmos».

«(...) Esta é a luz de Inverno no auge da sua pureza. (...) A única ambição das suas partículas é alcançar um objecto e, grande ou pequeno, torná-lo visível. É uma luz íntima, a luz de Giorgione ou Bellini, e não a de Tiepolo ou Tintoretto. E a cidade demora-se nela, saboreando o seu afago, a carícia do infinito de onde veio a luz.» No Inverno, Veneza acalmava por momentos os nervos de Joseph Brodsky, do mesmo modo que a luz (a sua luz) e o nevoeiro absorviam o perfil das colunatas e dos pátios. Num recanto determinado do Cannaregio, onde também andou Corto Maltese, o panorama que a partir da Ponte de la Saca se avista para a parte norte da laguna levou-o a afirmar estarmos aí diante da mais perfeita aguarela do mundo. A ilha cemitério de San Michele fica mesmo em frente, no quadrante Este. Ocupa praticamente todo o quadro. Para quem, como muitos, desejava morrer em Veneza, não de causas naturais, mas por vontade, num quarto de um palazzo, virado ao Grande Canal, e escrever, antes de comprar um Browning, algumas «elegias apagando cigarros nas lajes húmidas do chão» até se percebe. Mas Brodsky não veio a morrer em Veneza, mas em Nova York, com 56 anos, de ataque de coração, em 28 de Janeiro. Todavia, e como quis, encontra-se sepultado em San Michele, no distrito dos mortos da cidade que amou, atrás dos muros de tijolo que sempre o impressionaram, a pouca distância de outro distrito veneziano, o Cannaregio, ali entre esses secretos locais de Veneza, esses que se tornam mais belos quando chega o Inverno, num «tempo para nos esquecermos de nós próprios».

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março 13, 2007

Paisagem: Pajottenland: Bruegel (5)

março 09, 2007

Paisagem: Pajottenland: Bruegel (4)

Pajottenland, província de Vlaams-Brabant, Vlaanderen, Fev/Mar.2007 (Photos by RC)

Ainda e por último, as árvores. A Pajottenland, as árvores de Pieter Bruegel, l `Ancien, 500 anos depois, e os lugares da sua sequência de trabalhos intitulada De Maanden, aqui nos meses de Fevereiro e Março, como em De sondere tag (La journée sombre): Vollezele, Gooik, Leenik, Ninove, Gaasbeck, Oetingan, Enghien, St Pieters-Lieeuw.

Passagem: Pajottenland Blog

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março 07, 2007

Paisagem: Pajottenland: Bruegel (3)

De nestenrover, (Huile sur bois,1568), Pieter Bruegel, l´Ancien

Pieter Bruegel, l `Ancien pintou De nestenrover (Le dénicheur), que traduziríamos para O camponês e o pilha ninhos, um ano antes da sua morte, em 1569. Em comparação com as suas representações mais antigas, esta obra dá a impressão de que poderia ter sido pintado por um outro artista. Na verdade, a paisagem montanhosa das suas primeiras imagens, porventura, como referímos, influenciadas pela sua viajem a Itália e aos Alpes, é agora substituída pelo imenso território plano dos campos, típico, aliás, da Vlaanderen (Flandres) e da Pajottenland, a vastidão do panorama cede perante a patente aproximação a determinados elementos da natureza e a tradicional enorme multiplicidade de figuras, como por exemplo sucede em Landschap met ijsschaatsen en de vogelknip (Paysage d ´hiver avec patineurs et trappe aux oiseaux) e De volkstelling te Betlehem (Le dénombrement de Bethléem), é drásticamente reduzida, mas, em contrafundo, apresentada de uma maneira monumental. A sua concepção da paisagem, que é, como temos visto, a marca relevante da sua obra, aparece, aqui, através da forma como, nomeadamente, a luz é captada através das árvores, formal e tecnicamente inovada. Efectivamente, com De nestenrover (Le dénicheur), Bruegel contribuíu decididamente para o desenvolvimento e a importância da pintura de paisagem.

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março 02, 2007

Paisagem: Pajottenland: Bruegel (2)

Pajottenland, província de Vlaams-Brabant, Vlaanderen, Fev/Mar.2007 (Photos by RC)
Pieter Bruegel, l ´Ancien susteve a tradição dos pintores Flamengos Primitivos dos século 15, como Van Eyck e Hans Memling, mas foi além dela ao transmitir-nos nas suas representações, quer sejam as gravuras ou os óleos sobre tela, a vastidão larga das paisagens e a importância significante de cada pormenor. Com Bruegel a paisagem passa para primeiro plano, assume o comando da descrição e o movimento da cena, na qual são registadas as tragédias e as comédias humanas até ao detalhe diminuto, que muitas vezes coloca enigmas na interpretação ou suscita a dificuldade de estabelecer conexões, como se algumas das suas imagens fossem uma imensa parábola de códigos desconhecidos. Com os seis trabalhos da sua série De Maanden (Os meses), pintados entre 1564-1565, designadamente com os dois deles que aqui vimos, respectivamente De Sondere Tag e De jagers in de sneeuw, Bruegel sugeriu-nos a transição do tempo, a passagem das estações do ano e, nelas, a mudança dos sentimentos e actividades humanas. Fê-lo através da imagética da paisagem, colocando-a no primeiro plano e à frente da observação, e deu-nos a perceber que subjacente a cada uma das suas cenas e representações por vezes independentes se desenrola a ideia maior e central: a de que o tempo, o triunfo de Saturno, mais tarde ou mais cedo resgatará os panoramas e o mundo. Com De Sondere Tag, um dos trabalhos daquela série, Bruegel transmite-nos esta ideia de efemeridade, esta passagem contínua, situando-nos nos meses de Fevereiro e Março, e, por isso, na transição do Inverno (De jagers in de sneeuw) para a Primavera, naquelas que são as paisagens da Pajottenland e as aldeias da Brabant, na Flandres. As árvores que vemos no plano central de De Sondere Tag são uma constante nos trabalhos de De Maanden, como se por elas, logo à primeira, sem ser preciso mais nada, percebêssemos a transição das estações e das emoções humanas. Das árvores partimos para o resto. Como nestas, aqui, que são, na verdade, uma das presenças mais impressivas e distintas da Pajottenland e da província de Vlaams-Brabant, por vezes com formas e silhuetas que apenas distam das dos quadros de Bruegel nos séculos. As árvores são as mesmas, o tempo é que não.

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fevereiro 25, 2007

Paisagem: Pajottenland: Bruegel (1)

La Journée Sombre (Huile sur bois,1565, Série De maanden), PieterBruegel, l´Ancien

Fevereiro, princípios de Março, na Pajottenland, região da Província de Vlaams-Brabant (Flemish-Brabant), na Bélgica. Horizontalmente estamos mais ou menos na fronteira entre a Vlaaderen (Flandres) Ocidental e Oriental e, verticalmente, na transição para a Wallonne (Valónia). As árvores, altíssimas, cujos ramos despidos acinzentam o panorama, para onde quer que nos voltemos, formam renques quase geométricos que se estendem pelos prados até aos casarões acastelados de tijolo escuro e aos palheiros das quintas. A neve deixou de cair à pouco tempo, mas a lenha continua empilhada nos alpendres e nos quintais. Esta é a região de um dos maiores artistas flamengos: Pieter Bruegel, l´Ancien (1525/30-1569). Pajottenland significa o país dos "pajot", aqueles que vivem nas "pagnotes", pequenas habitações em estrutura de terra lamacenta, reforçadas a madeira e cobertas de palha. Assim, os "pajot" ou "payots" seriam os habitantes dessas casas baixas, os camponeses que viviam nos vales férteis do Noroeste da Brabant. Aqui, a natureza não só domina a paisagem, mas é, ainda, a própria matéria da paisagem, o próprio tema, a partir do qual se desenrolam e pormenorizam as tragédias e paixões humanas.

E é precisamente isso o que vemos que sucede com as pinturas e as gravuras de Bruegel. A paisagem assume o protagonismo, autonomiza-se, deixa de ser uma característica secundária das representações, um adereço das figurações de carácter religioso, designadamente dos artistas flamengos primitivos do século 15. Com Bruegel, as paisagens começam a falar por si e a natureza adquire uma importância até aí relegada para segundo plano. Esta preferência pelas paisagens largas, a perder de vista, onde os homens e as mulheres são apenas representados como detalhes mínimos, quase imperceptíveis, é manifesta nas famosas séries de Bruegel conhecidas como De grote landschappen (As paisagens vastas), de 1555-1558, e De maanden (Os meses), de 1565-1566. Ora, é óbvio, desde cedo, o interesse da arte Flamenga pela pintura de paisagem. Originalmente, a paisagem não passava de um elemento secundário para as cenas relegiosas, como por exemplo em Van Eyck. Veja-se, a este propósito, o que se passa com essa obra-prima, esse tesouro imortal que é De Aanbidding van het Lams God, que se encontra na St Baafskathedraal, em Ghent. Contudo, desde Joachim Patinir, que parece ter sido o primeiro retratista de paisagens no Sul da Holanda, as representações religiosas e mitológicas vão passar a encontrar-se subordinadas aos panoramas, os quais serão, então, o verdadeiro objecto da pintura. Patinir prefere claramente retratar as paisagens vistas de elevados pontos de observação e repletas de uma variedade de elementos naturais. Bruegel, designadamente na série De grote landschappen, vai aderir a essa tradição mas, por outro lado, desvia-se dela profundamente. Na verdade, enquanto os componentes dos trabalhos de Patinir parecem arbitráriamente combinados, Bruegel integra todos os elementos das suas paisagens numa composição visivelmente estruturada e substitui o mundo artificial de Patinir por fragmentos da natureza que nos são revelados tão realisticamente que temos a impressão que ganham vida própria. Naturalmente que a viajem que Bruegel fez a Itália teve a este respeito um impacto significativo. Viu os Alpes, e a enorme atracção que estes lhe causaram forneceu-lhe a matéria para os seus futuros trabalhos. Mas existe uma outra tradição da representação da paisagem para a qual Bruegel contribuíu significativamente. É patente em várias das suas De grote lanschappen não apenas a motivação para captar grandes cenários mas também uma enorme atenção ao detalhe, através da projecção de diversos elementos para o campo de observação. Por isso Bruegel está na esteira de uma importante evolução na arte da paisagem. Enquanto o princípio do século 16 apenas mostrou interesse pelas paisagens que ofereciam uma vista gereralista do cenário, a meio do século uma série de artistas começam a representar e a relevar pormenores da natureza de muito perto. No fundo: largueza de panorama e atenção ao detalhe. Bruegel desempenhou um papel fundamental neste desenvolvimento: nos seus trabalhos os elementos que não se encontram imediatamente à vista, os pequenos vestígios, tornam-se doravante mais importantes, até ocuparem praticamente toda a perspectiva, às vezes, inclusive, com significações estranhas, não perceptíveis, que levantam dúvidas de interpretação e sentido, como se fizessem parte de um mundo ampliado, grotesco. Com a representação, a par dos grandes panoramas, dos pormenores da natureza o interesse dos artistas flamengos nas suas paisagens consolidou-se. O fascínio de Bruegel pelo paisagem da Província de Brabant e pela região da Pajottenland está estreitamente ligado a este contexto. Mas apesar da contribuição de Bruegel para a evolução da arte da paisagem, raramente ele apresenta qualquer cena natural sem a presença de figuras humanas. As pessoas que aparecem nas suas imagens são na maioria invariavelmente camponeses, a trabalhar na natureza, a presenciar uma festa, a descansar ou como protagonistas da exemplificação de provérbios ou de contextos amorosos. É o que sucede marcadamente nas pinturas da série De maanden (Os meses), duas das quais, respectivamente, De Sombere Dag e De Jagers in de Sneeuw, estão aqui reproduzidas. De maanden entronca na tradição artística Flamenga de representar actividades humanas em diferentes estações. Nestas imagens o homem não está apenas presente na natureza, mas faz parte inalienável dela. Efectivamente, poucos pintores conseguiram captar a mudança dos sentimentos, das emoções e das estações do ano tão perfeitamente como Pieter Bruegel.

E regressamos ao ponto onde começámos: estamos na Pajottenland, mais propriamente em Vollezele, na fronteira entre a Vlaaderen (Flandres) Ocidental e Oriental. Finais de Fevereiro, princípios de Março. Em alguns lugares ainda se sente a marcada presença do Inverno, como uma ameaça que escurece a paisagem e as actividades. Nas colinas e ao logo dos território plano vai dar-se a mudança para a Primavera. A paisagem estende-se e domina. Ela é o centro, o fundamento, o acto semelhante às custódias humanas, o seu espelho, a sua passagem. É isso precisamente o que vemos na série de pinturas de Bruegel referentes aos De maanden (Os meses), e, aqui, concretamente em De Sombere Dag e em De Jagers in de Sneeuw.

De Sombere Dag, a representação respeitante aos meses de Fevereiro e Março, é a última da série De maanden, e mostra a transição do Inverno para a Primavera. À direita um agricultor, um "pajot" corta os ramos das árvores e outro recolhe a madeira. Outro homem renova, como é habitual nesta época do ano, as fachadas da sua casa, provavelmente uma "pagnote". Entretanto, dois camponeses alegres comem algumas wafels e uma criança, de mão dada com uma mulher, usa uma coroa de papel, numa clara alusão ao Carnaval. À esquerda do quadro um homem prepara a sua carroça, um músico toca flauta à porta de uma hospedaria, um homem urina contra a parede de uma casa e uma mulher e o seu filho parecem passar um mau bocado enquanto são perseguidas pelo seu marido e pai embriagados. Toda a cena desta pintura de Bruegel decorre ao entardecer, com algumas áreas, como os picos das montanhas nevadas e a fachada da casa, já iluminadas. Contudo, as montanhas em fundo revelam a presença latente do frio e da neve. A tempestade é também eminente. Mas as árvores que aparecem no centro da imagem constituem um ponto fixo e de mudança na paisagem ainda tormentosa. Estamos a presenciar a transição que se dá nas estações do ano em Fevereiro e Março.

Na verdade o pico do Inverno, dos meses de Dezembro e Janeiro já passou. O compasso do branco da neve e do verde-azul do céu gelado dará progressivamente lugar ao verde e amarelo, que já se entrevê, como vimos, em De Sombere Dag. O que não sucedia com De Jagers in de Sneeuw, a paisagem anterior, a de Inverno, da séria De maanden, de Bruegel. Aqui, onde três caçadores, acompanhados pelos seus cães, regressam a casa com a sua magra caça, enquanto à porta da estalagem "In den hert" uma fogueira está a ser acesa, tudo o resto, os homens, as casas, as aves, estão representados numa cor sombria, a qual se opõe à concepção das cores da vida, que já se adivinham em De Sombere Dag. De contrário, em De Jagers in de Sneeuw o Inverno ocupa toda a extensão da paisagem, a qual é, na sua vastidão fria, acentuada pelo voo da ave que se encontra à direita, talvez num prenúncio da morte e da solidão do Inverno.

Pieter Bruegel, l ´Ancien soube como poucos dar-nos essa transição da vida e do tempo, das estações e dos homens, nas suas paisagens. Como tão marcadamente vai sucedendo, neste momento, na Pajottenland, onde viveu e andou, e aqui, em Vollezele.

De Jagers in de sneeuw (Huile sur bois,1565, Série De maanden), PieterBruegel, l´Ancien

Passagem: Vlaams-Brabant; Vlaaderen

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fevereiro 12, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (5)

Mother of God, by Vladimir (século XII)
Uma imagem serve uma lembrança. A partir daí podemos entrar num dos elementos essênciais do acto criador. A recordação, a imagem, seja ela memorizada ou presencial, é a evocação pessoal que o artista faz, numa dinâmica de liberdade, a partir de algo que interioriza ou interiorizou. Neste contexto, a capacidade de lembrar lugares determinados, sejam aqueles pelos quais passámos ou porque já faziam parte, mesmo antes de existirem, das nossas sensações, pode transportar-nos, dentro daquela liberdade (o tal vogando livres, como já aqui vimos a propósito do que poderá separar Brodsky e a Rua dos Douradores), e dentro da nostalgia correspondente, para a missão do artista e do significado da arte e, por isso, indo mais longe, para os limites ténues da vida, do tempo e de Deus.
Acompanhemos, a este propósito, ainda o Diari: Martirologio e Sculpting in Time, donde, respectivamente, retiramos os seguintes dois registos de Andrej Tarkovszkij:
11.Nov.1981: «I do not know why - I remembered how, when I was in Italy, I found an icon, the Vladimir Mother of God, displayed in the ancient little church on the seashore. And how the trembling sweetness that I felt in my soul seemed to arise from a kind of impatience, the wait for some joyous event that would surely come to pass».
«Devoid of spirituality, art carries its own tragedy within it. For even to recognize the spiritual vacuum of times in which he lives, the artist must have specific qualities of wisdom and understanding. The true artist always serves immortality, striving to immortalize the world and man within the world».
Mais em pormenor, e como súmula, ainda de Sculpting in Time (Tarkovszkij, Andrej. Sculpting in Time; Esculpir o Tempo. Trad. de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1998), Tarkovszkij escreve:
«Quando falo de poesia, não penso nela como género. A poesia é uma consciência do mundo, uma forma específica de relacionamento com a realidade. Assim, a poesia tormna-se uma filosofia que conduz o homem ao longo de toda a sua vida. Lembremo-nos do destino e da personalidade de um artista como Alexander Grin que, morrendo de fome, foi para as montanhas com arco e flecha a ver se caçava algo com que pudesse alimentar-se. Relacionemos esse fato com a época em que este homem viveu, e tal relação nos revelará a figura trágica de um sonhador. Pensemos também no destino de Van Gogh. Pensemos em Prishvin, cujo próprio ser emerge das características daquela natureza russa (a tal nostalgia russa) que ele descreveu tão apaixonadamente. Pensemos em Mandelstam, em Pasternak, Chaplin, Dovjenko, Mizoguchi, para nos darmos conta da imensa força emocional dessas figuras sublimes que pairam altíssimo sobre a terra, e nas quais o artista aparece não como um mero explorador da vida, mas como alguém que cria incalculáveis tesouros espirituais e aquela beleza especial que pertence apenas à poesia. Tal artista é capaz de perceber as características que regem a organização poética da existência. Ele é capaz de exprimir a verdade e a complexidade profundas das ligações imponderáveis e dos fenómenos ocultos da vida».
Além disto é difícil dizer mais. De um Tempo di Viaggio para a imagem e para o definitivo momento da recordação. Tudo se desmembra agora. Torna-se num vislumbre de algo que emana do destino e se refunde numa Nostalghia ou nas nostalgias de cada um e de cada viagem. Chegamos a Deus, à transcendência, ou aos seus significados. Mas mesmo assim, e para dar expressamente de frente com Ele (Diari: Martirologio, 11.Jun.1982):
«In my opinion, when we talk about God making man in His own image and likeness, we should understand that the likeness has to do with His essence, and this is creation. From this comes the possibility of evaluating a work and waht it represents. In short, the meaning of art is the search for God in man».

Nostalghia (1983), Andrej Tarkovszkij

«The unbroken moment that comes to life within the images of Andrey Tarkovsky`s films and photographs is transfigured and becomes an unbroken moment of contemplation for those of us who look at them, making every image become a part of our lives, a memory of our own personal experience. The winged figure of an angel comes to rest, luminous in the surrounding darkness, like a visible presence of heaven on earth: a presence hidden by a veil, a presence that cannot be described except by the action of showing another invisible presence to our watching gaze» (Giovanni Chiaramonte in The Image as Remembrance. Instant Light - Tarkovsky Polaroids. Edited by Giovanni Chiaramonte and Andrey A. Tarkovsky. London: Thames & Hudson, 2004).

Passagem: Tarkovsky Polaroids

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fevereiro 06, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (3)

Nostalghia.com, Kimitoshi Sato (Reports of Andrey Tarkovsky's Society of Japan)

Madonna del Parto, Piero della Francesca (Capela do Cemitério, Monterchi, Província de Arezzo, Toscana, Itália)

Bagno Vignoni (Província de Siena, Toscana, Itália)

Passagem: The Geography of Nostalghia; Samples from the Japanese Tarkovsky Photobook; Tarkovsky`s Tuscany; San Galgano Abbey

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janeiro 29, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (1)

Bagno Vignoni (Província de Siena, Toscana, Itália)
Uma viagem é possível. Para outra mais assombrada, efeito de uma busca interior ou de uma qualquer nostalgia. Em 1979 Andrej Tarkovszkij está em Itália na companhia do poeta e argumentista italiano Tonino Guerra. Ambos vão, por um mês, iniciar um Tempo di Viaggio, uma jornada, física e espiritual, à descoberta de um local, também ele real e mental, marcado no espírito de Tarkovszkij para as filmagens de Nostalghia. Guerra, o anfitrião, conduz o realizador russo através das belezas tradicionais e turísticas da Itália, de Nápoles em direcção a sul, por Sorrento e Lecce. Mas Tarkovszkij procura um lugar secreto, já visualizado, objecto de uma escolha que só ele sabe qual é, mesmo antes de lhe dar forma. A sua tensão interior libertou-se da realidade para se transformar numa relação emocional e contemplativa com essa realidade. Andrej sabe que tudo se encaixará de uma forma subtil e única num só local e num estado de alma. Durante este tempo de viagem as estradas de Itália e as vilas, as árvores e as piazzas alternam com as imagens de casas, varandas e jardins traseiros onde Tonino e Andrej reflectem sobre os fundamentos do artista e como ele - refere o russo - se deve sacrificar pela sua arte; para que o que fizer contenha as belezas, acrescenta Tonino Guerra. No fim, Andrej encontra realmente o que procura. A sua busca de Nostalghia, ou, na verdade, a sua busca de uma nostalgia, de uma unidade interior e de um sentido, termina nas paisagens da Itália central, nas vilas medievais das regiões de Siena e Arezzo, na Toscana, e em dois momentos/locais determinantes e figurativos: com o fresco da Madonna del Parto, de Piero della Francesca, em Monterchi, e nas termas de Bagno Vignoni. O resultado desta etapa à procura de uma outra, desta investigação proposta por Tarkovszkij, foi concretizado em Tempo di Viaggio, o documentário, de cerca de 66 minutos, escrito e realizado por Andrej e Tonino para a TV italiana. A lenta progressão dos lugares e imagens desta viagem é já o prenúncio do que estava a acontecer no espírito de Andrej Tarkovszkij e que ele materializará, interiramente, em 1983, com Nostalghia. De facto a sucessão artística e poética das representações de Tempo di Viaggio, em vez de apresentarem um facto concreto ou possibilitarem conclusões, postulam a caminhada de um personagem dentro e à volta de si mesmo, a lidar com as suas interrogações. Não há acção, nem factos, nem desenvolvimento do enredo; há apenas simplicidade - tal como - e é Andrej que a certo passo o afirma - nos filmes de Antonioni, na música de Bach, em Leonardo e nos livros de Tolstoy. É a iniciação de um processo de transformação em que alguém se torna cativo de um ambiente e nele encontra o propósito da sua pesquisa. A busca cumpre-se na contemplação do rosto da Madonna del Parto, que a Andrej lhe lembra o da sua mulher, e na bruma que de manhã cobre a piscina de Santa Caterina da Siena, nas termas de Vignoni, onde os aldeões se banham para reclamar a juventude. Tarkovskzkij usará efectivamente estas imagens e ideias, mais tarde, no seu filme definitivo. Nele, como aqui em Tempo di Viaggio, também não há um enredo, nem acontecimentos, apenas imagens e fragmentos de um mundo interior, psicológico. Em Nostalghia, Gortchakov, a figura central (um espelho do próprio Andrej), é um poeta que parte para a Toscana com o intuito de reunir material para escrever o libreto de uma ópera sobre o compositor russo do século XVIII Maksim SazontoviC Berezovskij, que viveu em Itália, onde obteve fama e reconhecimento, mas cuja inexorável nostalgia pela sua Rússia natal o levou a voltar, onde pouco tempo depois se suicidou. Gortchakov, acompanhado pela sua tradutora Eugenia (Domiziana Giordano), percorre as colinas da Toscana para ver a Madonna, porque o seu rosto (tal como a Tarkovszkij) lhe lembra o da sua mulher na Rússia. Sózinho, enquanto Eugenia se aventura pelas redondezas, Gortchakov enceta, como Maksim Berezovskij, uma peregrinação interior, uma nostalgia (como também foi a de Andrej Tarkovszkij no seu exílio), perfeitamente ilustrada no filme pelo contraste entre a paisagem monocromática da Rússia e a idílica Itália rural, que só vai encontrar paz, alívio e sentido nas águas cálidas de Bagno Vignani. Nostalghia é certamente (a par de Zerkalo, de 1975) o filme de Tarkovszkij com maior expressão poética, uma projecção exacta da sua alma, das suas nostalgias, uma das obras mais melancólicas, contemplativas e simbólicamente obscuras do cinema: «o retrato de alguém em profundo estado de alienação em relação a si próprio e ao mundo, incapaz de encontrar um equilíbrio entre a realidade e a harmonia pela qual anseia, num estado de nostalgia provocado não apenas pelo distanciamento em que se encontra do seu país, mas também por uma ânsia geral pela totalidade da existência» (Tarkovszkij, Andrej. Sculpting in Time; Esculpir o Tempo. Trad. de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1998). Afinal a descoberta de uma realidade abstracta e de um sentido último que fora, como vimos, iniciado na mente de Andrej (e também de Gortchakov, e porventura de Berezovskij), em Tempo di Viaggio. Tempo de Viagem é pois o exemplo de como um começo pode servir outro começo, de como uma viagem, seja ela qual for e como for, se pode - e deve - empreender para nos conduzir a uma outra mais fundamental e perene: seja a do significado da vida e da constatação do efeito que a realidade exerce sobre nós, seja apenas aquela que cada um procura num certo momento, a propósito de um lugar, de uma paisagem ou de uma visão, de uma lembrança ou descoberta, por um fresco de Piero della Francesca ou por uma peça de Bach. Afinal o caminho de uma Nostalghia contida noutra nostalgia, que por sua vez se encontra noutra, e noutra, e em cada um de nós, fragmento atrás de fragmento. Como o é, neste tempo de viagem, a imensa nostalgia russa - como são sempre todas as nostalgias russas - em que Tarkovszkij conversa acerca da sua casa distante numa aldeia do seu país natal, sobre os campos cultivados e os tapetes de flores, e Guerra recita um poema seu no dialecto romagnolo. É o Tempo di Viaggio, de cada viagem e de cada Nostalghia desse tempo e dessa viagem. Fragmento sobre fragmento, na procura do irrecuperável.

«Um cesto cheio de fruta é a obra acabada. É certo. Enquanto um passeio na floresta será sempre uma questão pessoal sobre passeios e ar fresco.» (Andrej Tarkovszkij)

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