fevereiro 15, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (6)

Nostalghia (1983), Andrej Tarkovszkij
«Em outros tempos chegavam à ponte das candeias
multidões em penitência suplicando graças
para os soldados da guerra, as histórias de amor,
as doenças, para ganhar dinheiro, juventude,
para desejos secretos, por exemplo muitos homens
desentendiam-se com a sua gaita,
se lhe diziam: preparada? Ela respondia: não!
Bastava cruzar a ponte com uma vela acesa
que não podia apagar-se até à cruz do moinho.
Mas o vento soprava, uma brisa descia
da montanha e as mãos fatigavam-se
de tanto proteger a chama e então toca a tentar,
tentar de novo, um mês, um ano ...
A uma velha quase a chegar ao fim
pegou-se-lhe fogo à roupa e lá se foi tudo, roupa, tempo e feitio.
Desde essa desgraça os crentes
abandonaram a devoção e mais ninguém lá vai.
No passado domingo dei uma espreitadela à ponte
e vi o filho tolo de Filomena
com uma vela acesa na mão.
A chama estava firme e nem a brisa do fundo
do rio a movia. Qual será a graça que suplica?
Uma vida normal ou continuar a sua loucura?
Antes de chegar à cruz do caminho
logo ali, a dois passos, parou
e soprou sobre o lume.»
(Canto Décimo Sexto. Poema de Tonino Guerra, soletrado em Nostalghia. Guerra, Tonino. E`Mel. O Mel. Trad. de Mário Rui Oliveira; Lisboa: Assírio & Alvim, 2004).

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fevereiro 12, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (5)

Mother of God, by Vladimir (século XII)
Uma imagem serve uma lembrança. A partir daí podemos entrar num dos elementos essênciais do acto criador. A recordação, a imagem, seja ela memorizada ou presencial, é a evocação pessoal que o artista faz, numa dinâmica de liberdade, a partir de algo que interioriza ou interiorizou. Neste contexto, a capacidade de lembrar lugares determinados, sejam aqueles pelos quais passámos ou porque já faziam parte, mesmo antes de existirem, das nossas sensações, pode transportar-nos, dentro daquela liberdade (o tal vogando livres, como já aqui vimos a propósito do que poderá separar Brodsky e a Rua dos Douradores), e dentro da nostalgia correspondente, para a missão do artista e do significado da arte e, por isso, indo mais longe, para os limites ténues da vida, do tempo e de Deus.
Acompanhemos, a este propósito, ainda o Diari: Martirologio e Sculpting in Time, donde, respectivamente, retiramos os seguintes dois registos de Andrej Tarkovszkij:
11.Nov.1981: «I do not know why - I remembered how, when I was in Italy, I found an icon, the Vladimir Mother of God, displayed in the ancient little church on the seashore. And how the trembling sweetness that I felt in my soul seemed to arise from a kind of impatience, the wait for some joyous event that would surely come to pass».
«Devoid of spirituality, art carries its own tragedy within it. For even to recognize the spiritual vacuum of times in which he lives, the artist must have specific qualities of wisdom and understanding. The true artist always serves immortality, striving to immortalize the world and man within the world».
Mais em pormenor, e como súmula, ainda de Sculpting in Time (Tarkovszkij, Andrej. Sculpting in Time; Esculpir o Tempo. Trad. de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1998), Tarkovszkij escreve:
«Quando falo de poesia, não penso nela como género. A poesia é uma consciência do mundo, uma forma específica de relacionamento com a realidade. Assim, a poesia tormna-se uma filosofia que conduz o homem ao longo de toda a sua vida. Lembremo-nos do destino e da personalidade de um artista como Alexander Grin que, morrendo de fome, foi para as montanhas com arco e flecha a ver se caçava algo com que pudesse alimentar-se. Relacionemos esse fato com a época em que este homem viveu, e tal relação nos revelará a figura trágica de um sonhador. Pensemos também no destino de Van Gogh. Pensemos em Prishvin, cujo próprio ser emerge das características daquela natureza russa (a tal nostalgia russa) que ele descreveu tão apaixonadamente. Pensemos em Mandelstam, em Pasternak, Chaplin, Dovjenko, Mizoguchi, para nos darmos conta da imensa força emocional dessas figuras sublimes que pairam altíssimo sobre a terra, e nas quais o artista aparece não como um mero explorador da vida, mas como alguém que cria incalculáveis tesouros espirituais e aquela beleza especial que pertence apenas à poesia. Tal artista é capaz de perceber as características que regem a organização poética da existência. Ele é capaz de exprimir a verdade e a complexidade profundas das ligações imponderáveis e dos fenómenos ocultos da vida».
Além disto é difícil dizer mais. De um Tempo di Viaggio para a imagem e para o definitivo momento da recordação. Tudo se desmembra agora. Torna-se num vislumbre de algo que emana do destino e se refunde numa Nostalghia ou nas nostalgias de cada um e de cada viagem. Chegamos a Deus, à transcendência, ou aos seus significados. Mas mesmo assim, e para dar expressamente de frente com Ele (Diari: Martirologio, 11.Jun.1982):
«In my opinion, when we talk about God making man in His own image and likeness, we should understand that the likeness has to do with His essence, and this is creation. From this comes the possibility of evaluating a work and waht it represents. In short, the meaning of art is the search for God in man».

Nostalghia (1983), Andrej Tarkovszkij

«The unbroken moment that comes to life within the images of Andrey Tarkovsky`s films and photographs is transfigured and becomes an unbroken moment of contemplation for those of us who look at them, making every image become a part of our lives, a memory of our own personal experience. The winged figure of an angel comes to rest, luminous in the surrounding darkness, like a visible presence of heaven on earth: a presence hidden by a veil, a presence that cannot be described except by the action of showing another invisible presence to our watching gaze» (Giovanni Chiaramonte in The Image as Remembrance. Instant Light - Tarkovsky Polaroids. Edited by Giovanni Chiaramonte and Andrey A. Tarkovsky. London: Thames & Hudson, 2004).

Passagem: Tarkovsky Polaroids

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fevereiro 07, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (4)

A sequência italiana de Andrej Tarkovszkij e Tonino Guerra em Tempo di Viaggio termina nas colinas da Toscana, na província de Siena, nas termas de Bagno Vignoni, na bruma que de manhã se levanta da piscina de Santa Caterina da Siena. Tonino, sobre essa busca de Nostalghia, e sobre as imagens que essa busca e o seu encontro possibilitou, escreverá:

«We travelled extensively from Naples soutwards, where he was struck by the beauty of the Baroque architecture of Lecce and the vision of Trani Cathedral. By the time we finnaly arrived Bagno Vignoni , the ideas for the structure of a film were entwined aroud a story he liked. I remember when we entedred the little church on the edge of the water-filled square, wher mist rising from the water gave a sense of distance to the landscape of ancient houses. The warm light that morning streamed through the dusty windows and came to the rest on faded decorations on a wall. He surprised me sitting on a pew, as though I were just the right shadow to accentuate the caress of the sun on the walls beyond my dark body.

These images leave with us a mysterious and poetic sensation, the melancholy of seeing things for the last time. It is as though Andrey wanted a swift way to pass on his own enjoyment to others. They are something to be shared, not only a method of making is own wish to stop time come true. And they feel like a fond farewell.» (Tonino Guerra in A Fond Farewell. Instant Light - Tarkovsky Polaroids. Edited by Giovanni Chiaramonte and Andrey A. Tarkovsky. London: Thames & Hudson, 2004).

Tarkovszkij, por sua vez, registará no seu Diari: Martirologio, a 26 de Abril de 1980, o que efectivamente seria a formatação da ideia previamente concebida no seu espírito, como se o local finalmente descoberto para a sua Nostalghia, e, no fundo, para aquela outra nostalgia, ou para as várias nostalgias latentes, fosse, já de si, uma alteração, mental, dele próprio, enquanto local original e real, e, por isso, uma imagem artística construída a partir de elementos factuais, mas aberta a todas as possibilidades:

«The first half of the film will problably be set in Bagno Vignoni. But not in the real place - in an invented one. Where there is only the pool, and everything is dilapidated, more intimate, more provincial. From the very beginning, everything will take place near the pool by the hotel. Therefore I shall have to recreate the atmosphere of the place in detail

O que nos leva a interrogar-mo-nos sobre o processo de criação e sobre a relevância das imagens e da sua procura, mesmo que apenas matizadas interiormente e completamente autónomas da realidade, ou seja, a relevância para a imagem e criação artística entre o que é do domínio do inconsciente e do consciente. Acompanhemos Andrej, de novo, agora em Time Within Time: The Diaries 1970-1986, na entrada correspondente a 3 de Julho de 1975:

«How does a project mature? It is obviously a most mysterious, imperceptible process. It carries on independently of ourselves, in the subconscious, crystallizing on the wall of the soul. It is the form of the soul that makes it unique, indeed only the soul decides the hidden ´gestation period` of that image which cannot be perceived by the conscious gaze».

E o que é uma imagem artística?:

03.Fev.1974: «An artistic image is one that ensures its own develpment., its historical viability. An image is a grain, a self-evolving retrocative organism. It is a symbol of actual life, as opposed to life itself. Life contains death. An image of life, by contrast, excludes it, or else sees in it a unique potential for the affirmation of life. (...) Whatever it expresses - even destruction and ruin - the artistic image is by definition an emboyment of hope, it is inspired by faith» ( Time Within Time: The Diaries 1970-1986).

E que Nostalghia ou nostalgias imanam da imagem artística? Tarkovszkij encerra, agora em Sculpting in Time:

«The image is not a certain meaning, expressed by the director, but the entire world reflected as in a drop of water.»

E voltamos ao início: de uma imagem, de um Tempo di Viaggio, ou de uma viagem ou viagens, e de uma geografia latente, pode partir-se para a busca de um sentido, de uma nostalgia, mesmo já interiorizada anteriormente, e, se quisermos, para a realização e significado de uma arte aí encontrada ou produzida. Num instante de luz.

Passagem: Luce Istantanea; Tarkovsky Polaroids

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fevereiro 04, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (2)

Nostalghia (1983), Andrej Tarkovszkij
É na Toscana que a busca de Andrej Tarkovszkij, iniciada, com o poeta de Santarcangelo di Romagna Tonino Guerra, em 1979, em Tempo de Viaggio, vai terminar. Andrej encontra nas planícies e colinas da Itália central o desfecho da sua pesquisa, a sua Nostalghia, como também aí, por sua vez, encontrará Andrei Gortchakov - o personagem central do filme de 1983 - o sentido da sua procura e da sua nostalgia, ao seguir a biografia do compositor russo, do século XVIII, Maksim SazontoviC Berezovskij, também ele, a seu tempo, imerso na sua nostalgia. Tarkovszkij, Gortchakov, Berezovskij: viagem sobre viagem sobre viagem sobre nostalgia.
Toscana, Itália
Passagem: Toscana

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janeiro 29, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (1)

Bagno Vignoni (Província de Siena, Toscana, Itália)
Uma viagem é possível. Para outra mais assombrada, efeito de uma busca interior ou de uma qualquer nostalgia. Em 1979 Andrej Tarkovszkij está em Itália na companhia do poeta e argumentista italiano Tonino Guerra. Ambos vão, por um mês, iniciar um Tempo di Viaggio, uma jornada, física e espiritual, à descoberta de um local, também ele real e mental, marcado no espírito de Tarkovszkij para as filmagens de Nostalghia. Guerra, o anfitrião, conduz o realizador russo através das belezas tradicionais e turísticas da Itália, de Nápoles em direcção a sul, por Sorrento e Lecce. Mas Tarkovszkij procura um lugar secreto, já visualizado, objecto de uma escolha que só ele sabe qual é, mesmo antes de lhe dar forma. A sua tensão interior libertou-se da realidade para se transformar numa relação emocional e contemplativa com essa realidade. Andrej sabe que tudo se encaixará de uma forma subtil e única num só local e num estado de alma. Durante este tempo de viagem as estradas de Itália e as vilas, as árvores e as piazzas alternam com as imagens de casas, varandas e jardins traseiros onde Tonino e Andrej reflectem sobre os fundamentos do artista e como ele - refere o russo - se deve sacrificar pela sua arte; para que o que fizer contenha as belezas, acrescenta Tonino Guerra. No fim, Andrej encontra realmente o que procura. A sua busca de Nostalghia, ou, na verdade, a sua busca de uma nostalgia, de uma unidade interior e de um sentido, termina nas paisagens da Itália central, nas vilas medievais das regiões de Siena e Arezzo, na Toscana, e em dois momentos/locais determinantes e figurativos: com o fresco da Madonna del Parto, de Piero della Francesca, em Monterchi, e nas termas de Bagno Vignoni. O resultado desta etapa à procura de uma outra, desta investigação proposta por Tarkovszkij, foi concretizado em Tempo di Viaggio, o documentário, de cerca de 66 minutos, escrito e realizado por Andrej e Tonino para a TV italiana. A lenta progressão dos lugares e imagens desta viagem é já o prenúncio do que estava a acontecer no espírito de Andrej Tarkovszkij e que ele materializará, interiramente, em 1983, com Nostalghia. De facto a sucessão artística e poética das representações de Tempo di Viaggio, em vez de apresentarem um facto concreto ou possibilitarem conclusões, postulam a caminhada de um personagem dentro e à volta de si mesmo, a lidar com as suas interrogações. Não há acção, nem factos, nem desenvolvimento do enredo; há apenas simplicidade - tal como - e é Andrej que a certo passo o afirma - nos filmes de Antonioni, na música de Bach, em Leonardo e nos livros de Tolstoy. É a iniciação de um processo de transformação em que alguém se torna cativo de um ambiente e nele encontra o propósito da sua pesquisa. A busca cumpre-se na contemplação do rosto da Madonna del Parto, que a Andrej lhe lembra o da sua mulher, e na bruma que de manhã cobre a piscina de Santa Caterina da Siena, nas termas de Vignoni, onde os aldeões se banham para reclamar a juventude. Tarkovskzkij usará efectivamente estas imagens e ideias, mais tarde, no seu filme definitivo. Nele, como aqui em Tempo di Viaggio, também não há um enredo, nem acontecimentos, apenas imagens e fragmentos de um mundo interior, psicológico. Em Nostalghia, Gortchakov, a figura central (um espelho do próprio Andrej), é um poeta que parte para a Toscana com o intuito de reunir material para escrever o libreto de uma ópera sobre o compositor russo do século XVIII Maksim SazontoviC Berezovskij, que viveu em Itália, onde obteve fama e reconhecimento, mas cuja inexorável nostalgia pela sua Rússia natal o levou a voltar, onde pouco tempo depois se suicidou. Gortchakov, acompanhado pela sua tradutora Eugenia (Domiziana Giordano), percorre as colinas da Toscana para ver a Madonna, porque o seu rosto (tal como a Tarkovszkij) lhe lembra o da sua mulher na Rússia. Sózinho, enquanto Eugenia se aventura pelas redondezas, Gortchakov enceta, como Maksim Berezovskij, uma peregrinação interior, uma nostalgia (como também foi a de Andrej Tarkovszkij no seu exílio), perfeitamente ilustrada no filme pelo contraste entre a paisagem monocromática da Rússia e a idílica Itália rural, que só vai encontrar paz, alívio e sentido nas águas cálidas de Bagno Vignani. Nostalghia é certamente (a par de Zerkalo, de 1975) o filme de Tarkovszkij com maior expressão poética, uma projecção exacta da sua alma, das suas nostalgias, uma das obras mais melancólicas, contemplativas e simbólicamente obscuras do cinema: «o retrato de alguém em profundo estado de alienação em relação a si próprio e ao mundo, incapaz de encontrar um equilíbrio entre a realidade e a harmonia pela qual anseia, num estado de nostalgia provocado não apenas pelo distanciamento em que se encontra do seu país, mas também por uma ânsia geral pela totalidade da existência» (Tarkovszkij, Andrej. Sculpting in Time; Esculpir o Tempo. Trad. de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1998). Afinal a descoberta de uma realidade abstracta e de um sentido último que fora, como vimos, iniciado na mente de Andrej (e também de Gortchakov, e porventura de Berezovskij), em Tempo di Viaggio. Tempo de Viagem é pois o exemplo de como um começo pode servir outro começo, de como uma viagem, seja ela qual for e como for, se pode - e deve - empreender para nos conduzir a uma outra mais fundamental e perene: seja a do significado da vida e da constatação do efeito que a realidade exerce sobre nós, seja apenas aquela que cada um procura num certo momento, a propósito de um lugar, de uma paisagem ou de uma visão, de uma lembrança ou descoberta, por um fresco de Piero della Francesca ou por uma peça de Bach. Afinal o caminho de uma Nostalghia contida noutra nostalgia, que por sua vez se encontra noutra, e noutra, e em cada um de nós, fragmento atrás de fragmento. Como o é, neste tempo de viagem, a imensa nostalgia russa - como são sempre todas as nostalgias russas - em que Tarkovszkij conversa acerca da sua casa distante numa aldeia do seu país natal, sobre os campos cultivados e os tapetes de flores, e Guerra recita um poema seu no dialecto romagnolo. É o Tempo di Viaggio, de cada viagem e de cada Nostalghia desse tempo e dessa viagem. Fragmento sobre fragmento, na procura do irrecuperável.

«Um cesto cheio de fruta é a obra acabada. É certo. Enquanto um passeio na floresta será sempre uma questão pessoal sobre passeios e ar fresco.» (Andrej Tarkovszkij)

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