outubro 29, 2008

Moleskine (10)

Two roads diverged in a yellow wood,/ And sorry I could not travel both/And be one traveler, long I stood/ And looked down one as far as I could/ To where it bent in the undergrowth.// Then took the other, as just as fair,/ And having perhaps the better claim,/ Because it was grassy and wanted wear;/ Though as for that the passing there/ Had worn them really about the same.// And both that morning equally lay/ In leaves no step had trodden black./ Oh, I kept the first for another day!/ Yet knowing how way leads on to way,/ I doubted if I should ever come back.// I shall be telling this with a sigh/ Somewhere ages and ages hence:/ Two roads diverged in a wood, and I--/ I took the one less traveled by,/ And that has made all the difference. (The Road Not Taken; Robert Frost, 1915)

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junho 20, 2008

Poesia: Guia de Discussão (5)

Não existe forma certa ou errada para falar de poesia, para ouvi-la, vê-la e fazer com ela a ligação para as coisas que existem, suportando com cada verso uma pequena parte do mundo e legendá-lo. Poesia e música. Quando uma se encontra e funde noutra, temos a poesia e a música perfeitas. Ou de outro modo: quando a última canção da moda te fizer lembrar um texto de Heráclito ou ... de Dylan Thomas, então a tua cultura não terá nada a temer. E aí, o objectivo está cumprido.

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junho 13, 2008

Poesia: Guia de Discussão (4)

Instruções para uso da Poesia
Não existe forma certa ou errada para falar de Poesia
4. Quem precisa de poemas?
O poema "Durante anos o meu coração inquiriu-me" de Hafez invoca quatro diferentes religiões e faz convergir num só passo imagens de carácter místico. "Dia de Outono" de Rilke é um texto sobre o lamento do fim do verão. O poema de Leopardi intitulado "À sua mulher" faz relevar que a apaixonada do poeta não viver sequer já neste mundo. Para quem acha que o poeta tencionou ler estes poemas? Quando os lemos, o que é que da nossa experiência pessoal nos vem à lembrança?Em contraste com o tom pessoal e com as emoções imediatas daqueles poemas, "The Crane Dance" de Yannis Ritsos e o "O Rapto de Europa" de Ovidio são por seu lado textos que convocam histórias particulares da mitologia. Reagiremos de forma diferentes a estes poemas? Como é que eles fazem uso das passagens mitológicas a que se referem? E o que é que pode acontecer se não estivermos eventualmente familiarizados com as histórias mitológicas que lhes servem de pano de fundo? Há alguma forma pela qual estes poemas reflectem as mesmas preocupações daqueles outros que foram escritos com uma voz mais pessoal? Para lá da imediata questão sobre o que é que um poema significa, existem outras ideias que se poderão considerar: as texturas do som e da cadência, a importância das imagens, e a sugestão provocada pelo conjunto das palavras e frases. À medida que lemos os poemas devemos tentar ver de que forma estas particularidades nos aparecem como um todo em si. Existem algumas coisas que os poemas podem comunicar que o não podem ser através da forma comum de um mero depoimento? Quais serão essas coisas ou realidades?

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junho 03, 2008

Poesia: Guia de Discussão (3)

Instruções para uso da Poesia
Não existe forma certa ou errada para falar de Poesia
3. Acerca de que são os poemas?
Cada poema envolve a sua própria forma de escrita e a selecção seguinte é apenas uma amostra das várias formas à disposição dos poetas. "Pedra Negra e Pedra Branca" de Vallejo e "Dia de Outono" de Rilke são sonetos, a tradicional forma das 14 linhas praticada em diversas línguas. O termo "soneto" deriva da expressão provençal "sonet" e da palavra italiana "sonetto", ambas as quais significam "pequena canção". "Para a Sua Mulher" de Leopardi é uma canzone, um modelo italiano que também toma o seu nome da palavra canção; quase uma balada, cada verso do poema possui o mesmo número de linhas. Podemos imaginar cada um destes poemas serem transformados em música? Após observar cuidadosamente estes poemas e depois de os ler em voz alta, pense como estes poemas poderiam ser partituras de música e como, simultaneamente, eles são diferentes da música.

"Mu `allaqa" de Imru ´al-Qays e "Canção de Baghdad" de Ibn al-Arabi são poemas originalmente escritos em "monorima", uma forma comum usada para a lírica escrita em árabe, persa, latim e até galês: significa apenas que a palavra no fim de cada linha tem a mesma rima. De outro modo, os versos do Rapto de Europa das Metamorfoses de Ovidio foram originalmente compostos em hexametros, um dos mais comuns modelos latinos. Um grande número de poemas é actualmente composto em verso livre, que, embora possua, por vezes, menos cadência, está contudo inequivocamente atento ao som do ritmo das palavras. Por seu lado, o texto de Francis Ponge "As árvores extinguem-se a si próprias dentro de uma esfera de nevoeiro" é um poema em prosa - onde não há rima particular, nem quebras de linha intencionais.

Procure pensar por que é que cada poema foi composto na sua forma particular ou porque é que um poema não obedeceu a qualquer forma particular. O que é que estas escolhas expressam além do texto ou juntamente com as palavras elas próprias? Quais são as virtudes e os perigos de escrever poemas numa forma particular - ou escrevê-los sem obedecer a qualquer modelo?

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maio 28, 2008

Poesia: Guia de Discussão (2)

Instruções para uso da Poesia
Não existe forma certa ou errada para falar de Poesia
2. Acerca de que são os poemas?
Quase todos os poemas podem ser resumidos a um pequeno depoimento em prosa ou a um parágrafo. Por exemplo, o poema de César Vallejo "Pedra Negra e Pedra Branca" é uma aproximação circular à questão sobre o que acontece quando morremos - e à fantasia de assistirmos ao nosso próprio funeral. Neste poema, Vallejo reflecte acerca da sua futura morte como um facto que sucederá "num dia que eu já recordo". Ao anunciar a sua própria morte, o poeta diz: "César Vallejo morreu". À medida que lemos o poema podemos perceber que a forma como Vallejo lida com a sua morte envolve o jogo que o mesmo faz com as frases e os verbos. Isto ajuda a explicar alguma particularidade na dicção do poema.

Como responder a isto? O que é que significa olhar para trás para a nossa própria morte como uma coisa que poderá eventualmente acontecer? Sentimo-nos tristes quando o poeta fala acerca das pessoas que o magoa ainda que "não lhes tenha feito nada"? Quando o poeta, efectivamente mal disposto, coloca nos ossos de "humerus" o seu corpo como se fossem as suas roupas, o que é que nos parece? Há algum sentido de humor no poema? Que sentimentos experimentamos quando acabamos de o ler? "Pedra Negra e Pedra Branca" de Vallejo, "Instante Imortal" de Marko Vesovic`s e "In Memoriam, Julho 19, 1914" de Anna Akhmatova são todos eles, de uma forma ou de outra, poemas acerca da mortalidade - e os últimos dois, mais concretamente, sobre a guerra. Falemos sobre estes poemas. Que semelhantes coisas se encontram neles referidos sobre a vida e a a morte? Que diferentes coisas? Podemos ler estes poemas à luz do que se passa actualmente no mundo?

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maio 20, 2008

Poesia: Guia de Discussão (1)

Instruções para uso da Poesia
Não existe forma certa ou errada para falar de Poesia
1. Ler os poemas em voz alta.
A aproximação implica que se leiam os poemas em voz alta. Após a primeira leitura, cada ouvinte ou participante deve referir um nome ou uma frase que lhe chame a atenção. Após a segunda leitura, cada ouvinte ou participante deve referir uma imagem que tenha especialmente retido da leitura do poema. Depois da terceira leitura cada participante ou ouvinte deverá reagir ao poema como um todo. Por último, após estes três primeiros passos, cada ouvinte deverá escolher um poema favorito ou odiado para ler em voz alta. Cada poema deve ser introduzido acompanhado da explicação das razões básicas que presidiram à sua escolha.

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outubro 12, 2007

Ilhas Aran: Uma Carta (2)

Carta Sobre a Grandeza das Ilhas de Synge e O`Flaherty (por Francisco José Viegas; Revista LER, nº 15, Verão de 1991)
(continuação): «(...) Também estive nesse lugar e chama-se Don Aonghasa (Dun Aengus), a oito quilómetros de Cill Ronáin - trata-se de um templo fortaleza em honra de Aengus, o deus do amor, filho de Dagda. Dizem que aparecia sempre acompanhado de pássaros (afinal como Cliona, amante de Ciabhan, uma espécie de deusa irlandesa da beleza e rainha das fadas do Munster, que tinha também sempre três pássaros a acompanhá-la). É um lugar misterioso e fica exactamente no lugar oposto à célebre rocha que assinala a fuga de Johm Dillon em direcção à América para escapar da polícia inglesa e ao local que se chama Sete Igrejas - recortado sobre o mar e em frente ao mar, vigiando as costas da Irlanda maior (Galway, afinal). «Mas das janelas do American supeita-se que o Arann Flyer, ao aproximar-se de Ross-An-Mhill e dos campos de turfeiras que só se esgotam junto de Salthill, já deve ter perdido todo o correio que leva, guardado em sacos de lona. Nos últimos dias os pequenos aviões não têm podido aterrar aqui, nem sobrevoar Inishere, a ilha ao lado. O farol da Oileán na Tuí, ultimamente, está mais ou menos coberto de neblina durante todo o dia e Mrs. Kavanagh (a minha anfitriã e hospedeira, na casa demasiado branca de que já te falei em cartas anteriores) não prevê melhorias por esta semana. Ela tem apenas quarenta anos mas lembra-se do tempo em que Inis Mór ficava isolada da Irlanda durante as semanas de temporal, invariavelmente em Janeiro.
«Synge, nos intervalos da escrita de Aran Islands, parava por aqui, nesta baía e seguia por um caminho que dá directamente para a colina de Daibhche, onde, dizem, estão sepultadps os corpos de duzentos santos, trazidos para aqui a fim de serem protegidos pelo futuro, mesmo depois da morte. Obviamente é uma repetição da ideia de que a Irlanda foi e provavelmente continua a ser uma espécie de refúgio da Europa, um lugar que constituiria uma reserva espiritual e uma ilha onde determinados valores, mistérios e relíquias estariam guardadas e entregues aaos cuidados dos druidas (ou de quem os substituiu), ao longo dos tempos.» (continua ...)
A Canção do Delirante Aengus (excerto) (W.B.Yeats, 1899)

«Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos/ Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,/ Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,/ E beijar seus lábios e segurar suas mãos;/ Caminharemos entre coloridas folhagens,/ E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo/ As prateadas maçãs da lua,/ As douradas maçãs do sol.»

Inish Mór, Aran Islands, Irlanda; Set.2006 (Photo by RC)

Passagem: Dun Aengus; Aran Islands; Aengus

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setembro 30, 2007

Ilhas Aran (Óileain Árainn): A Travessia Iniciática

Pouco se prende à nossa sensível condição de demandarmos os lugares da iniciação, aqueles onde por excelência experimentamos os ritos de passagem, como uma travessia. Encontramos costas que se levantam à frente como paisagens mentais, onde, para lá do que pensamos, se esconderá talvez a felicidade, o medo ou a chegada (e a partida) como uma metáfora da existência. As travessias são o que de determinante que se entranha de uma seiva indutiva, através da qual comunicamos com a dimensão mística da busca. A visibilidade do lugar em frente pertence-nos; podemos partir; cada lugar só impressiona porque sugere a visibilidade do próximo. «A viagem (...) é uma viagem no imaginário e no invisível, uma busca de ilha em ilha, como a que Melville, com outros meios, ilustrou em Mardi. O animal goza e morre, o homem maravilha-se e morre. Onde fica o porto?». Há travessias frágilmente importantes, essenciais. É uma colecção que se faz ao longo da vida. Cada demandante tem as suas, umas alternativas, outras únicas, outras que por vezes tocam outras, ainda que imperceptívelmente. Assim a travessia feita pelo Cruzeiro do Canal entre a marina da Horta e o cais da Madalena, no extremo ocidental da ilha do Pico, nos Açores (... inutile phare de la nuit, diria Chateaubriand) e a que vai do cais de Rossaveal (Ros a' Mhíl)>, no Connemara, no coração do Gaeltacht, para o porto de Kilronan (Cill Rónáin), em Inis Mór, a maior das Aran Islands (Oileáin Árainn), um dos últimos degraus, como diria Seamus Heaney, da terra na vastidão fria do Atlântico. Ali, em Kilronan, descendo a rampa ferrugenta do Aran Ditect ou do Aran Ferries, e com a fachada creme e isolada, sob o céu alto e espelhado do fim da tarde de todas as ilhas, do Pier House (Guest House), mesmo em frente, a 100 metros, com as três mesas de madeira à entrada, onde os hóspedes se sentam a beber cerveja enquanto observam os recém chegados, começamos, tendo à direita a costa esfumada e baixa do Connemara e à esquerda a baía de Kilronan, a outra travessia depois da travessia. Francisco José Viegas, também ele demandante apaixonado destas e outras ilhas e costas, de quem já aqui citámos um texto da sua série dos Poemas Irlandeses, conduz-nos nesta sua - e nossa travessia:
«o barco demora pouco tempo neste canal, e leva consigo,/ na direcção de Cill Ronáin, turistas de ocasião que visitam/ Dún Aonghasa e poisam as suas bicicletas no pequeno vale/ abandonado. alguns se demoram mais tempo, ali, olhando o mar,/ onde nenhum segredo nos escondem as aves./ abandonam-se, adormecem, aguardam. algum milagre acontecerá/ para justificar esta travessia.»
A Travessia para as Aran, Francisco José Viegas (O Medo do Inverno seguido de Poemas Irlandeses; Caminho: 1994)

Did sea define the land or land the sea?/ Each drew new meaning from the waves' collision./ Sea broke on land to full identity. (excerto de Lovers of Aran, Seamus Heaney)

Passagem: Aran Islands ; Kilronan ; Aran Ferries ; Aran Direct

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setembro 24, 2007

Irlanda: a Música (4)

A Irish Music é uma terra santa, um longo caminho, um terrível destino, uma terra que desaparece por sob o nevoeiro que se levanta das ondas, uma visão do que se entranha na paisagem em movimento, onde o tempo corre. Aqui ficam 3 textos com a música e o silêncio dos que a escutam, à beira da costa das ilhas, das praias ao vento e dos portos piscatórios das vilas, com as visões que se esfumam ao longe, como deuses que dançam na memória.
«Os violinistas tocam todos mal,/ Ou amaldiçoadas estão as cordas,/ Tambores e tímbales/ E trompetes estão rebentados, / E o trombone», gritou ele,/ «O trompete e o trombone»,/ E piscando um olho malicioso,/ «Mas o tempo corre, corre.»// «Sou da Irlanda/ Da Terra Santa da Irlanda,/ E o tempo corre», gritou ela./«Por caridade, vinde/ Vinde dançar comigo na Irlanda.»
I Am of Ireland (excerto), W.B.Yeats (W.B.Yeats; Uma Antologia; Selecção e Trad. de José Agostinho Baptista; Assírio & Alvim: 1996)

amei a música como o corpo de Dubhlaing ua Artigan. em Clontarf/ ele tornou-se invisível no meio da batalha e eu previ a sua morte,/ ficando mais só, com a minha música e a minha harpa,/ mágica harpa, terrível destino de a possuir e de amar os seus sons,/ pois que morreram aqueles que os escutaram. quiseram os deuses/ que assim fosse, e esta condenação me perseguirá/ para sempre - onde é a morada de Dubhlaing, o amado incessante.

A Fada de Craig Liath, Aiobhell, Francisco José Viegas (O Medo do Inverno seguido de Poemas Irlandeses; Caminho: 1994)

Presumimos um dia radicar-nos/ Para sempre entre as suas colinas azuis/ E a costa árida onde passámos a noite/ De desespero em oração e vigília, / Mas uma vez colhida a lenha que o mar trouxe,/ Construída uma lareira, e pendurado/ O nosso caldeirão como um firmamento, / Quebrou-se a ilha sob os nossos pés como uma onda./ A terra que nos sustinha parecia/ Só ter firmeza quando a abraçávamos/ In extremis. Tudo o que lá sucedeu,/Creio, foi visão.

The Disappearing Island, Seamus Heaney (de The Haw Lantern, 1987); Trad. de Rui Carvalho Homem; Da Terra à Luz - Poemas 1966-1987; Relógio D`Água Editores: 1997)

Passagem: Irish Music Central

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setembro 18, 2007

Irlanda: A Música (3)

Como se referiu aqui e aqui, na Irlanda, música, poesia, terra, mar e viagem são realidades inseparáveis, formando, cada uma delas, e todas, a nossa grande deslocação através da paisagem. É um tema recorrente em Seamus Heaney, esse, o do movimento que fazemos ao atravessar os vales e as costas a conduzir. Conduzir como forma de ligarmos um lugar ao outro, conduzir como acto de meditação e desnivelamento dos sentidos.

Co. Clare, The Burren, Ireland, Set.2006 (Photo by RC)

A música irlandesa, seja ela a de raíz marcadamente tradicional (o sean-nós), como em Liam O ´Flynn, nos Boys of the Lough ou nessa verdadeira lenda que são os The Chieftains, seja na sua vertente de ressurgimento transmultidisciplinar, onde se incluem as inesquecíveis sonoridades de fusão de Enya, dos Altan, Capercaillie e dos Clannad, seja, finalmente, na nova música e na Pop, com marcas de relevância mundial, como The Waterboys, The Pogues, os U2, Van Morrison (que em parceria com os The Chieftains é autor de um album histórico), The Cranberries e The Corrs, conta-nos, à semelhança da poesia, da literatura e da arte, uma história. Uma história de exílio, de esperança, de tempestades, de caminhos perdidos e rostos lembrados. Através dela perspassamos os olhos e os ouvidos pelas estrelas desaparecidas dos Celtas, pela sua marcha antiga através das pedras e dos túmulos, pelo sol a bater nas cruzes dos cruzamentos do Dhún na nGall, pelas costas agrestes nos Anais Irlandeses, inspirados pela visão parcelar de Tír na NÓg, a terra da juventude, e pelos espíritos das crianças que dançam na praia ao vento, como no poema de W.B.Yeats. As canções e as baladas falam por si mesmo e contam-nos histórias de deuses deitados ao longo de vastos campos de relva. Tempus Vernum ... Deora ar mo chroí ...

Co. Connemara, Ireland, Set.2006 (Photo by RC)

Pelas estradas que cruzam o Connemara, o Donegal, a península de Dingle ou o Ring of Kerry, a música ecoa e sobe pelas bermas de pedra e nos campos de urze e turfa cortada. Como em Seamus Heaney, é a conduzir que lá chegamos ... Por isso, sugerem-se a seguir algumas canções, baladas e músicas irlandesas. São algumas, podiam ser outras; são poucas, podiam ser muitas. Mas são essenciais para o Postscript ou The Peninsula, de Heaney. Ou seja: essenciais para a nitidez das coisas em suas formas,/ água e terra definidas nos seus extremos. Por outras palavras: para conduzir através da peninsula, into County Clare, along the Flaggy Shore,/ In September or October.

1. Dr Macphail's Reel, Capercaillie

2. An Gille Ban, Trad., Capercaillie

3. Siuil A Rún, Trad., Sissel

4. Buachaill On Eirne, Clannad

5. Everywhere, Cara Dillon

6. Coinleach Ghlas An Fhomhair, Trad., Arr: Clannad

7. An Mhaighdean Mhara, Altan

8. Aisling Gheal, Trad., Liam O'Flynn

9. Strange Boat, The Waterboys

10. When Ye Go Away, The Waterboys

11. CarricKfergus, Trad.

12. The Stolen Child, W.B. Yeats/AdaptedTo Music By Mike Scott, The Waterboys

13. Miss Rowan Davies, Boys Of The Lough

14. Buachaill On Eirne, Trad., The Corrs

15. An t-Eilean Mu Thuath, Capercaillie

16. Irish Heartbeat, Van Morrison & The Chieftains

17. Coney Island, Van Morrison

18. Danny Boy, Trad.

19. SHe Moved Through The Fair, Trad., arr. Paddy Moloney The Chieftains & Sinéad O'Connor

20. Celtic Excavation, Van Morrison

21. May It Be, Enya

22. Iona Theme, Capercaillie

23. Colum Cille, Capercaillie

24. The Hebrides, Capercaillie

25. A Gentle Place, Clannad

26. Atlantic Realm, Clannad

27. Calum's Road, Capercaillie

28. Mallai Chroch Schli, Altan

29. Dunford's Fancy, The Waterboys

30. Deireadh An Tuath, Enya

31. On Your Shore, Enya

32. Ode To My Family, The Cranberries

33. With or Without, U2

«Quando mais nada tiveres a dizer, conduz/um dia inteiro contornando a península./O céu tão alto como sobre uma pista,/a terra sem marcas que digam se chegamos,//sempre a caminho, mas sempre aquém de avistar terra./Ao sol-pôr, horizontes sorvem mar e colina,/o campo lavrado engole a branca empena/e estás de novo no escuro. Agora relembra//o brillho da areia, um tronco em silhueta,/aquela rocha que esfarrapava as ondas,/aves marinhas com pernas como andas,/ilhas navegando por entre a névoa,//e regressa a casa ainda sem nada p`ra dizer/a não ser que agora lerás qualquer paisagem/assim: a nitidez das coisas em suas formas,/água e terra definidas nos seus extremos.»

The Peninsula; poema de Seamus Heaney (de Door into the Dark, 1969); Trad. de Rui Carvalho Homem; Da Terra à Luz - Poemas 1966-1987; Relógio D`Água Editores: 1997)

Passagem: Irish Music Central; Irish Music Magazine

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setembro 10, 2007

Irlanda: A Música (2)

The Burren, Co. Clare, Ireland, Set.2006 (Photo by RC)
"By God, the old man could hangle a spade./ Just like his old man", escreve Seamus Heaney em Digging. O velho cantor do Connemara haveria de gostar deste poema. A maior parte da paisagem do Connemara são pequenos campos trabalhados ao longo de gerações, homens "stooping in rhythm through potato drills", a cantarem enquanto erguem os muros pedra a pedra e a interiorizarem as palavras legadas pelos seus antepassados. A música tradicional irlandesa comporta uma espécie de mnemónica; lembra-nos os tempos antigos, e a passagem do tempo, e traz-nos à memória os rostos de amigos ausentes. Por outro lado, também conduz o passado ao futuro; e é, igualmente, uma música essencial e precisa para conduzir.
Seamus Heaney

O poema de Seamus Heaney intitulado Postcript desenvolve um tema recorrente da sua poesia, o acto de conduzir: conduzir como forma de ir de um lugar ao outro, conduzir até ao interior de cada um, conduzir como meditação. Em Postcript estamos no County Clare, aliás a região de origem da maior parte da música de um dos grandes artistas irlandeses, Liam O ´Flynn (uilleann pipes e whistle). O carro é uma espécie de sala de estar, sujeita à cadência da paisagem e às variações do tempo e da atmosfera. Também a música tem esse tipo de vulnerabilidade, à medida que a escutamos a chegar de um outro lugar, porventura vinda do oceano, dos cliffs do Co. Clare, como sucede em Pookas´Tune, Port na bPúcaí, ou então como os antepassados acreditavam que assim fosse.

De Lisdoonvarna a Ballyvaughan, passando por Kilfenora, bem no centro do The Burren e do Co. Clare, e tomando a inesquecível Road Coast 477, para trás, para sul, com as Aran Islands dispostas à direita, chegamos a Doolin, um dos grandes centros de preservação e divulgação da autêntica Irish Music. Aí, protegidos da chuva recorrente, com a música que todas as noites se toca e canta nos pubs, designadamente no Macdermotts e no Gus O`Connors, somos afinal conduzidos a um território outro que nos aparece, vista do Aran View House Hotel, como um ponto de luz no oceano escuro, a brilhar numa das extremidades de Inish Oirr, a mais pequena das Aran e a mais próxima do tempestuoso cais de Doolin. Na Irlanda música e poesia são uma e a mesma coisa; música, terra, mar e paisagem também. Não há uma sem a outra.

And some time make the time to drive out west/ Into County Clare, along the Flaggy Shore,/ In September or October, when the wind/ And the light are working off each other/ So that the ocean on one side is wild/With foam and glitter, and inland among stones/The surface of a slate-grey lake is lit/ By the earthed lightening of flock of swans,/ Their feathers roughed and ruffling, white on white,/ Their fully-grown headstrong-looking heads/Tucked or cresting or busy underwater./ Useless to think you'll park or capture it/ More thoroughly. You are neither here nor there,/ A hurry through which known and strange things pass/ As big soft buffetings come at the car sideways/ And catch the heart off guard and blow it open.

Postsript, Seamus Heaney
Passagem: County Clare; The Burren ; Doolin; Aran View Hotel; Seamus Heaney; Irish Music; Irish Music Bars

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setembro 04, 2007

Irlanda: A Música (1)

Sean-nós, literalmente, significa "old-style", e refere-se geralmente à elevada ornamentação do canto em língua irlandesa (o Gaeltacht) do Connemara, no Oeste da Irlanda: uma arte que persiste desde há séculos e que é ainda, mesmo actualmente, constantemente renovada. Um dos cantores, um homem aí dos seus 80 anos, está sentado a uma fogueira de turfa. Outro velho homem, talvez irmão, está ao seu lado, atento. À medida que aquele canta, a sua voz desfaz-se em pedaços, em notas altas. São pontos num mapa linear; e pode-se pensar que a linha de uma canção sean-nós é como uma dessas estradas pedregosas do Connemara, serpenteando entre muros de pedra, casarões antigos e em ruínas e bungalows recentes:
Your songs, when you sing them with two eyes closed/As you always do, are like a local road/ We`ve known every turn of in the past -
tal como Seamus Heaney escreveu em The Wellhead. Os olhos do cantor do Connemara estão abertos; mas ele está absorto na distância, muito para lá do presente - olhando directamente para o passado, visitando outra vez, pessoalmente, as circunstâncias da canção. E enquanto o inclina os olhos para a paisagem, interrogando-a, o companheiro prende as suas palavras nos lábios, como um viajante silencioso. Os seus olhos fecham-se. Então, o velho cantor chega ao fim da história. Ao ouvir The Wellhead, imaginei os olhos das mulheres cegas do poema, os quais podiam ver o céu reflectido no fundo do poço do vizinho. A imagem do poeta e do músico cegos é antiga. Os antigos bardos irlandeses eram obrigados a deitarem-se na escuridão, nas sombras, com uma pedra a fazer de almofada, até que tivessem acabado de compor o seu poema, cujos versos entrecruzavam padrões de um tapete oriental traduzido em palavras. O famoso O ´Carolan, tocador de harpa, compositor, bebedor, era cego. A poesia e a música contemplam a paisagem. Elas prosseguem lado a lado através dela. Diz-se que toda a música tradicional irlandesa aspira à condição do sean-nós. Esta é uma generalização, mas há nela laivos de verdade. As cadências lentas - por oposição à música de dança - devem atender às palavras não proferidas da canção à qual estão ligadas; e o som do canto (no qual a melodia é tocada com as uilleam pipes) deve ser pensado como o mais próximo da voz humana.

She went away from me, and she moved through the fair,/ And fondly I watched her, move here and move there,/Then she went homeward with one star awake -/ As the swan in the evening moves over the lake.// The people were saying no two were e`er wed,/But one had a sorrow that never was said,/She went away from me with her goods and her gear,/ And that was the last that I saw of my dear.// I dreamed it last night, my dear love came in,/ So sofly she came that her feet made no din,/ She laid her hand on me, and this she did say:/"It will not be long, love, "till our wedding day." (She Moved Thro`The Fair- Traditional (Irish Music)

Passagem: Irish Music; Gaeltacht; Connemara

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junho 21, 2007

As Ilhas sem Metáfora

«Quando mais nada tiveres a dizer, conduz/um dia inteiro contornando a península./O céu tão alto como sobre uma pista,/a terra sem marcas que digam se chegamos,//sempre a caminho, mas sempre aquém de avistar terra./Ao sol-pôr, horizontes sorvem mar e colina,/o campo lavrado engole a branca empena/e estás de novo no escuro. Agora relembra//o brillho da areia, um tronco em silhueta,/aquela rocha que esfarrapava as ondas,/aves marinhas com pernas como andas,/ilhas navegando por entre a névoa,//e regressa a casa ainda sem nada p`ra dizer/a não ser que agora lerás qualquer paisagem/assim: a nitidez das coisas em suas formas,/água e terra definidas nos seus extremos.»

The Peninsula; poema de Seamus Heaney (de Door into the Dark, 1969); Trad. de Rui Carvalho Homem; Da Terra à Luz - Poemas 1966-1987; Relógio D`Água Editores: 1997)

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março 25, 2007

Inutile Phare de la Nuit (3)

Quantas vezes uma linha nos levará em direcção aos lugares mais improváveis, como «os passos da nossa vida guiados também pela combinação de poucas palavras»?
«Durante muito tempo trouxe na memória uma frase de Chateaubriand: Inutile Phare de la Nuit. Creio que lhe atribuí sempre um poder de desencantado conforto como quando nos apegamos a algo que se revela um inutile phare de la nuit e, contudo, nos permite fazer alguma coisa apenas porque acreditávamos na sua luz: a força das ilusões. Na minha memória esta frase andava associada ao nome de uma ilha longínqua e improvável: Ile de Pico, inutile phare de la nuit.» (Antonio Tabucchi; Donna di Porto Pim e Altre Storie; Trad. de Maria Emília Marques Mano; Difel).
O que também pode levar, no fim da viagem, a um poema de Robert Louis Stevenson:
«Deixa que a tua alma encontre uma
Âncora neste mundo da matéria. Fundeia aqui o teu corpo -
Que desde já este espectáculo imutável seja
A gravura nos teus olhos; e quando soar a hora
E a verde paisagem escurecer de repente -
Os últimos, os que acompanharem o teu cavalo no sonho
Acompanharão o teu corpo morto.»
(An End of Travel. Stevenson, Robert Louis. Poemas. Trad. de José Agostinho Baptista; Lisboa: Assírio & Alvim, 2006)

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fevereiro 15, 2007

Tempo di Viaggio: uma Nostalghia (6)

Nostalghia (1983), Andrej Tarkovszkij
«Em outros tempos chegavam à ponte das candeias
multidões em penitência suplicando graças
para os soldados da guerra, as histórias de amor,
as doenças, para ganhar dinheiro, juventude,
para desejos secretos, por exemplo muitos homens
desentendiam-se com a sua gaita,
se lhe diziam: preparada? Ela respondia: não!
Bastava cruzar a ponte com uma vela acesa
que não podia apagar-se até à cruz do moinho.
Mas o vento soprava, uma brisa descia
da montanha e as mãos fatigavam-se
de tanto proteger a chama e então toca a tentar,
tentar de novo, um mês, um ano ...
A uma velha quase a chegar ao fim
pegou-se-lhe fogo à roupa e lá se foi tudo, roupa, tempo e feitio.
Desde essa desgraça os crentes
abandonaram a devoção e mais ninguém lá vai.
No passado domingo dei uma espreitadela à ponte
e vi o filho tolo de Filomena
com uma vela acesa na mão.
A chama estava firme e nem a brisa do fundo
do rio a movia. Qual será a graça que suplica?
Uma vida normal ou continuar a sua loucura?
Antes de chegar à cruz do caminho
logo ali, a dois passos, parou
e soprou sobre o lume.»
(Canto Décimo Sexto. Poema de Tonino Guerra, soletrado em Nostalghia. Guerra, Tonino. E`Mel. O Mel. Trad. de Mário Rui Oliveira; Lisboa: Assírio & Alvim, 2004).

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