maio 08, 2008

Psychedelic Goa

Todos estivemos lá. É a sonoridade para lá do horizonte, onde os últimos se refugiam para festejar a lua e a praia. Ritos de passagem, passagens para a India. Goa psicadélica, trance house, travellers ...

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maio 01, 2008

Moleskine (8)

«Não», disse, «é português, mas não veio como missionário, é um português que se perdeu na Índia».
O médico abanou a cabeça em sinal afirmativo. Usava um chinó brilhante que se movia cada vez que mexia a cabeça, como uma touca de borracha. «Na Índia perde-se muita gente», disse, «é um país feito de propósito para isso».
(excerto de Notturno Indiano, de Antonio Tabucchi, 1984; Trad. de Maria Emília Marques Mano para a Quetzal Editores: Lisboa, 1995)

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abril 22, 2008

Goa: Never Never Land

Os adolescentes encontram sempre satisfação porque Goa é a terra "never, never land", esse país para onde Peter Pan leva as crianças perdidas. Nesta terra de nenhures, diz-nos James Barrie, a única lei é nunca dizer "mamã" e andar à roda uns atrás dos outros no mesmo sentido, sem nunca nos apanharmos. Existe em todas as sociedades humanas um país do nunca-nunca, um sítio sem temporalidade e sem lei simbólica. Assim, para o ocidental, Goa representa esse lugar, um país fora do tempo, onde centenas de Peter Pan locais dançam e andam à roda. Se os rapazes se vestem como Peter Pan (calças justas e chapéu de Manali) e "voam" graças às suas motas Emphield, as raparigas parecem a fada Sininho, com as suas roupas transparentes e o chocalhar das braceletes indianas. E tal como Peter Pan, recusam-se a crescer. Na história, Peter Pan de facto voou pela janela pouco tempo depois do seu nascimento porque a mãe não o tinha pesado: ele não tinha, portanto, peso, tradução simbólica do narcisismo primário. Quando regressa algum tempo mais tarde, a janela está fechada e uma outr criança tomou o seu lugar. Ele decide então nunca mais crescer.
Ainda há alguns anos, a maior parte dos viajantes chegava a Mumbai e, daí, apanhava o meio de transporte mais económico para chegar a Panjim, a capital: o barco, que acentuava o aspecto de ilha de Goa. Levavam cerca de vinte e quatro horas a percorrer os seiscentos quilómetros que separam as duas cidades. A viagem lembrava um mini-cruzeiro, numa atmosfera de feira onde cada um lutava para ter um pouco de ponte. À partida pagava-se a um carregador que, vestido de vermelho, uma placa de cobre no peito, se batia para manter, espalhando panos no chão, um território que defendíamos depois sózinhos até à chegada. Esta "passagem" fazia a transição, que amortecia o choque cultural à chegada dos jovens ocidentais.
(...) Na maior parte dos casos era preciso esperar que os flip out (pacientes delirantes cobertos de infecções, emagrecidos por semanas ou mesmo meses de errância até que turistas quisessem tomar conta deles), como lhes chamava, chegassem a Goa, onde geralmente naufragavam depois do seu périplo pelo resto da Índia, às vezes enviados por indianos para que membros da sua "casta" se ocupassem deles. Passavem despercebidos, ao princípio, dado o costume local que faz da excentricidade uma maneira de estar no mundo, e a extrema tolerância (ou indiferença) dos indianos a seu respeito. Eles erravam, assim, alucinados, pelas praias, e faziam parte, ao fim de algum tempo, do teatro permanente que formava o desfile de ocidentais mascarados de flibusteiros, faquires, sultões, etc. A maior parte das perturbações psiquiátricas nos ocidentais pareciam no fim da época turística, por volta de Abril-Maio. Um provérbio local diz que nessa altura "os flipados caem como mangas", porque é a época (asfixiante, de pré-monção) em que se apanha este fruto.

(excertos de Fous de L`Inde, Délires d`Occidentaux et sentiment océanique; Régis Airault; Trad. de Ana Isabel Mineiro; Edições Via Óptima; Porto,2006) Passagem: Goa

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abril 04, 2008

Goa Trance House

(...) Goa está situada seiscentos quilómetros a sul de Mumbai. É uma etapa obrigatória para os turistas que visitam a Índia do Sul. É igualmente a base, durante a estação boa, de Novembro a Maio, de uma importante colónia ocidental que os indianos continuam a chamar "hippies", desde a sua aparição nos anos 60. Escolheram este lugar porque Goa yem tudo do paraíso terrestre. É desde há alguns anos o destino de charters que despejam vagas de turistas que só ficam uma semana e vêm "consumir" as praias de areia fina bordadas de coqueiros. Igualmente o fenómeno das raves, essas grandes festas techno, popularizou-se, e muitos jovens adeptos do Goa trance vêm só para participar nelas. O "espírito" de Goa desnaturou-se depois da chegada deste turismo de massas, enquanto que anos de passagem de viajantes independentes (que ficavam por vários meses) não tinhma mudado em profundidade a estrutura social da sua população.

A chegada dos hippies coincidiu com a descolonização deste pequeno enclave português: com efeito, a Índia retomo-o pela força em 1961. (...) Assim, quando os primeiros hippies chegaram a Goa, ficaram surpreendidos por encontrar indianos com nomes evocadores como Rosário ou Miranda. Falavam uma mistura de português e concanim, o dialecto local, num cenário de igrejas com ar de Lego. Nesta região rica e não sobrepovoada podiam facilmente comunicar com uma população mais próxima da sua cultura. Podiam mesmo partilhar uma comida europeizada. Reencontravam assim alguns pontos de referência e uma forma de coabitação impossível em qualquer outro lugar da Índia. É preciso adicionar a isso uma tolerância surpreendente dos habitantes e um estatuto económico particular de porto franco com as suas consequências, em particular o contrabando.

Com efeito, Goa é o paraíso como o imaginamos na Europa. Está acessível aos mais desprovidos, já que podemos contruir cabanas nas praias se não tivermos com que pagar uma dessas casas coloniais com cortinas de conchas, perdidas no meio das buganvílias, coqueiros e cajueiros. Alugam-se por algumas centenas de francos por mês aos Ocidentais que as reservam de uma estação para outra. Os mais jovens agrupam-se e criam assim verdadeiras "casas de adolescentes". Dois acontecimentos principais ritmam a vida dos Ocidentais em Goa, a feira das quinquilharias e as raves. Verdadeiras bacanais, começam tarde na noite e duram até ao meio-dia do dia seguinte. O Flea Market tem lugar uma vez por semana na praia de Anjuna e dura todo o dia. É um momento de encontros e de trocas de informação, em particular para saber onde e quando terá lugar a próxima festa. Outros lugares "mágicos" sofreram investidas em certos períodos: as ruínas de Hampi, a trezentos quilómetros dali, as prias de Kerala (Trivandrum), o Rajastão (Pushkar) e, mais recentemente, Gokarn, no Karnataka. Serviram de base de encontros aos Ocidentais que viajavam, mas em nenhuma parte foi tolerada durante tanto tempo a sua sedentarização. O único lugar equivalente onde "colónias" de Ocidentais puderam instalar-se encontra-se a Norte de Deli, na região de Kulu e Manali, onde os europeus contribuíram para desenvolver a cultura intensiva de cannabis. Na altura da monção, ainda há alguns anos, centenas de Ocidentais deixavam Goa para ocupar os seus quartéis de Verão nestes vales temperados. Ficavam assim muitos anos na Índia, vivendo de comércios mais ou menos legais, migrando ao sabor das estações. No entanto, a nova legislação indiana sobre os vistos fez desaparecer este modo de vida: só alguns irredutíveis arriscam passar vários meses na prisão e pagar multas importantes para ficar a tempo inteiro na Índia. Mesmo se as coisas mudaram, Goa é sempre Goa e atrai mais do que nunca os viajantes de todo o mundo. Já não é o caminho depois de semanas de aventuras, mas um lugar onde se chega em charters. Se os junkies se vão tornando raros, as raves gratuitas regadas a LSD, ecstasy e haxixe continuam cada vez mais fortes. Ainda há "flipados", mas poucos, comparado com os anos 70. (...) Não esqueçamos que o deus Xiva - deus da destruição e, logo, da reconstrução - adquiriu, graças à sua experiência de drogas, um conhecimento da "realidade suprema". Os sadus, os homens santos da Índia, inspiraram o modo de vida dos primeiros hippies, que reconheciam neles pioneiros do que pregavam: o caminho e os despojamento. Este movimento romântico encontrava assim na Índia um eco das suas ideias, e um terreno propício à experiência psicadélica.

(excertos de Fous de L`Inde, Délires d`Occidentaux et sentiment océanique; Régis Airault; Trad. de Ana Isabel Mineiro; Edições Via Óptima; Porto,2006)

Passagem: Goa

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março 27, 2008

O Sentimento Oceânico

A Índia sempre foi o símbolo da grande viagem e do maravilhoso, de Alexandre o Grande a Marco Pólo, mas também da idade de ouro, ao abrigo das fomes e das epidemias, na altura da Idade Média europeia. A esta imagem mítica opõe-se uma imagem mais recente, a da miséria e das fomes. (...) Cada época encontra ali os seus fantasmas: primeiro é a Índia dos reis magos, das pedras preciosas e das especiarias, depois o país das origens da civilização e dos grandes sistemas de pensamento. Pelos começos do século XX é a Índia dos faquires, dos marajás e dos animais sagrados, e depois dos anos 60 a dos gurus, da viagem e da droga. Apresenta-se sempre como uma espécie de negativo da Europa. É, de algum modo, a viagem através do espelho de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol, ou a descida aos infernos de Orpheu, de Jean Cocteau, como o país de "nenhures" de Peter Pan.

Pode ser a Índia do turismo, mas é desde sempre o país das peregrinações. (...) Os ocidentais são apenas mais alguns peregrinos. É a viagem ao Oriente dos românticos do século XIX e dos anos 60, em direcção às nossas origens culturais e individuais. Porque "este velho país novo dá a sensação de sair das águas da criação. Ele não representa nem o passado nem o futuro da humanidade, mas o seu banho original".

A que se deve como se uma parentela visceral nos ligasse, nos unisse esta espécie de feitiço que a Índia exerce sobre nós? "Bela ou aterradora, ela influencia-nos por todos os seus aspectos como se uma parentela visceral nos ligasse, nos unisse desde sempre". E o Ocidental depressa lhe chama, ele também, "Mother India", aquela que "pode dar-vos tudo, mas também retirar-vos tudo". É o país onde podemos renascer para nós próprios e para os outros, porque aqui tudo parece possível. Sentimos lá este "sentimento oceânico" de "união íntima com o Grande Todo, de pertença ao universal" de que fala Freud em Civilização e os seus descontentamentos, porque os limites do eu se tornam incertos. Esta dimensão regressiva faz com que nos sintamos todos crianças nesta civilização maternal. No entanto, a relação com este país é totalmente ambivalente. O sentimento de amor dá lugar de um dia para o outro a um sentimento de ódio, o "tudo é possível" transforma-se em "o todo impossível" e o "renascer" procura autodestruição. Assim, esta viagem ao Oriente que se ergue ao mesmo tempo como iniciação e prestação de provas do eu não é desprovida de alguns perigos psíquicos. Opera no espaço-tempo, leva o indivíduo ao ponto mais profundo do seu ser e metamorfoseia-o. "Qualquer viagem é assim, seguindo único itinerário, viagem em direcção ao ´centro` do objecto da procura e viagem ao centro de si mesmo. Os sucesso e os falhanços que acontecem no caminho têm igual importância e são igualmente necessários a esta elaboração do homem que deve, obedecendo à injunção plotiniana, esculpir a sua própria estátua". (excertos de Fous de L`Inde, Délires d`Occidentaux et sentiment océanique; Régis Airault; Trad. de Ana Isabel Mineiro; Edições Via Óptima; Porto,2006)

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março 25, 2008

The Gate to Índia

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março 17, 2008

Todos os Delírios

No nosso imaginário é tradicional associar Índia e loucura. A literatura assim o testemunha, do Vice-Cônsul de Marguerite Duras a O Homem que quis ser Rei de Rudyard Kipling, passando por Os Charutos do Faraó de Hergé. Nos anos 70, a opinião centralizou-se sobre os toxicómanos ou os jovens "que lá se drogam e enlouquecem". Na verdade, admitia-se que não se regressava indemne desta viagem por vezes iniciática, mas sempre patológica. Era preciso ser louco, pensava-se, para ir lá e arriscar-se. Só uma atracção irracional ou um delírio místico "orquestrado" por uma seita podiam motivar esta viagem.

Hoje as coisas mudaram. A Índia já não está reservada às viagens patológicas dos toxicómanos - apesar destes não faltarem na "lista de encontros" do viajante, e de serem sobretudo as raves de Goa que assustam os pais. Instalou-se uma outra realidade, que já não se esconde por trás da cortina da droga: a Índia pode "enlouquecer". Por isso é normal que, regressado da Índia, o viajante conte a história do seu encontro numa esquina de rua, ou no estribo de um autocarro, com um "flipado" de olhar perdido no cosmos. E ainda mais normal é que ele tenha pensado, num dado momento do seu périplo, largar tudo e viver, simplesmente viver, ao ritmo das monções, os seus desejos, os seus fantasmas. Não permitirá a Índia todos os delírios? (...) A experiência indiana convida a uma exploração do originário. Ela reactiva a parte mais arcaica do pensamento, que está na própria raíz dos processos de simbolização. Assim, a Índia interroga em nós a tenra infância, em particular dos adolescentes, dos quais conhecemos o estranho parentesco com esta época da vida. Ela faz ressoar o harmónico e acorda antigas angústias: fantasmas de devoração, de parcelamento e aniquilação, mas também de fuga. Na Índia vive-se nú, ou quase. Temos a impressão de estar numa espécie de bolha, de cavidade húmida e quente, atemporal, onde mesmo a comunicação é suposta ser feita "por vibrações". Este fantasma original de regresso ao útero maternal parece assombrar todos os indianos, que não desejam senão uma coisa: atingir o nirvana, a fusão primitiva com o "grande todo", e "dissolver-se", como um "boneco de sal", no oceano, para ser uno com o Universo.

A dimensão regressiva da Índia mantém o viajante num sentimento de todo-o-poderoso. Ele reencontra o conforto do narcisismo primário infantil e a omnipotência que lhe é atribuída. Este regresso inconsciente e momentâneo a um estádio precoce de indiferenciações Eu/não-Eu onde o bebé e a mãe são apenas um, dá a impressão de que tudo se torna possível. Daí a tomar-se por um super-homem e a reinvidicar a imortalidade, é só um passo. (excertos de Fous de L`Inde, Délires d`Occidentaux et sentiment océanique; Régis Airault; Trad. de Ana Isabel Mineiro; Edições Via Óptima; Porto,2006)

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março 08, 2008

Peter Pan e o Rei Leão

"Pensa-se que se vai fazer uma viagem, dizia Nicolas Bouvier, mas depressa é a viagem que vos faz ou vos desfaz". A viagem à India começa cedo, com a ideia que fazemos dela veiculada pela nossa cultura, os seus clichés, as suas lendas, os seus mitos, mas também a nossa infância alimentada de contos e de histórias maravilhosas. Este fantasma consolida-se na adolescências com os nossos encontros, com aqueles que "de lá regressaram". Depois há subitamente o choque, depois a prova e, seguidamente, a confirmação da Índia: as sensações novas submergem-nos, provocando um sismo íntimo que pode estar na origem da síndroma indiana. Finalmente, depois do regresso, toma-nos a nostalgia da Índia.

Mais do que qualquer outro país, a Índia estimula o Imaginário pelo artifício de emoções estéticas intensas que podem, no entanto, de um momento para o outro, empurrar o viajante para a angústia mais completa. Assim, a nossa "prova" da Índia está tingida de ambivalências. Claro que há a história pessoal de cada um, o seu "apelo-à-viagem" e o regresso de traumatismos mal digeridos que "sedimentaram" em nós e que o inconsciente traz, em certas ocasiões da vida, para cima do palco. Porque a Índia fala ao inconsciente: ela provoca-o, fá-lo ferver e, por vezes, transbordar. Faz reaparecer camadas profundas da nossa psique, o enterrado. Ela desdobra e sobrepõe no aqui e agora os diferentes estratos da nossa história. Simples estremecimento do espírito, esta sensação pode provocar em certas pessoas uma verdadeira explosão psicótica.

O próprio Freud não foi insensível à dimensão íntima de certos lugares. Ele descreve assim o sentimento de estranheza que sentiu ao contemplar pela primeira vez a Acrópole, onde o seu pai nunca tinha podido ir: "Veio-me subitamente esta estranha ideia: quer dizer, tudo existe realmente como tínhamos aprendido na escola".

Existe, por outro lado, na viagem, como na hipnose, uma parte de sugestão, e alguns deixam-se, mais facilmente que outros, levar sem resistência pela corrente. Freud terá tido medo de tentar a experiência, e de provar esta sensação oceânica "de pertença ao universal", que reconhece ignorar nas suas cartas a Romain Rolland?

(...) As dimensões inconscientes do desejo de evasão, segundo Freud, são marcadas pelo cunho duplo da procura e da ruptura. Mas ao tentar arrancar-se do seu passado, ao seu factum, o viajante corre sempre o risco de lá voltar a mergulhar brutalmente. Para outros, como Paul-Laurent Assoun, o viajante parte para a realidade à procura do progenitor imaginário. "Não se sentindo já limitado no seu desejo, o sujeito é absorvido por este movimento de procura fantasmática. Deste modo, o viajante refere-se frequentemente a um sentimento de exaltação. (...) Já não se encontra senão remetido senão à sua própria imagem num jogo de espelhos, que não é interrompida pelo olhar do outro, olhar ao qual o sujeito desejava precisamente subtrair-se, partindo em viagem."

(...) Aqui estamos de novo na ilha das crianças perdidas de Peter Pan - ou na errância despreocupada do Rei Leão, com a sua famosa divisa: Akumba matata ("faz o que te apetece") -, um lugar onde nos podemos transformar, ganhando tempo antes de regressarmos para junto dos nossos. (excertos de Fous de L`Inde, Délires d`Occidentaux et sentiment océanique; Régis Airault; Trad. de Ana Isabel Mineiro; Edições Via Óptima; Porto,2006)

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março 01, 2008

O Síndroma da Índia

Com os meus colegas psiquiatras da embaixada, punha-me muitas vezes a questão: "A Índia enlouquece ou os loucos é que vão à Índia?", surpreendidos pela frequência destes episódios psiquiátricos atravessados pelos viajantes. Distinguíamos dois tipos de fenómenos: de um lado, o choque da Índia; do outro, a prova da Índia.
O primeiro é uma vivência de desrealização à qual é submetido todo o viajante à chegada. Mesmo se a pessoa já espera este choque cultural, a realidade ultrapassa muitas vezes o que ela imaginou e pode estar na origem de todo o tipo de sintomas: angústias, ataques de pânico, sideração, afundamento depressivo, etc.

Os quadros psiquiátricos agudos, esses começam algumas semanas mais tarde, na prova da Índia. Associam despersonalização, ideias delirantes - quase sempre místicas - e um vago sentimento persecutório. (...) De regresso a sua casa, o viajante guarda geralmente uma boa recordação desta "crise" e muitas vezes não tem senão um desejo: voltar lá.

Comparávamos esta síndroma indiana com as que foram descritas noutros lugares míticos, como Jerusalém ou Florença. No berço do cristianismo, o nosso viajante tomar-se-á facilmente pelo Messias e sentir-se-á investido de uma missão evangélica. Em Itália, será atingido pelo famoso síndroma de Stendhal* e vai descompensar quando da contemplação de obras de arte.

(* O síndroma de Stendhal é uma doença psicossomática que provoca acelerações do ritmo cardíaco, sufoco, e por vezes alucinações em alguns indivíduos, quando são expostos a grande números de obras de arte.)

Em todos estes casos, a viagem modifica a nossa percepção da realidade do homem no planeta e tem um valor iniciático. Interroga-nos sobre o nosso lugar no universo e sobrte a eterna questão da morte. Os adolescentes que cruzamos pelos caminhos desta peregrinação às origens sabem-no bem, e a Índia oferece-lhes o tempo à margem de que precisam para esta "passagem" da vida. "O Oriente para se orientar", dizia Michaux ... É esta discrepância no espaço-tempo que procuram também algumas pessoas que se "curam" viajando. Outros põem simplesmente entre parênteses, durante algumas semanas, o seu "mal-estar na civilização". Penso em particular em todos os Ocidentais que parem no Inverno para debaixo dos coqueiros, associando assim diversas funções "terapêuticas" da viagem: estimulação do imaginário, fuga ao stress e ao peso sócio-familiar, e terapia pela luz como se faz em certas patologias depressivas.

(excertos de Fous de L`Inde, Délires d`Occidentaux et sentiment océanique; Régis Airault; Trad. de Ana Isabel Mineiro; Edições Via Óptima; Porto,2006)

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fevereiro 25, 2008

Escolhidos pela Índia

A Índia provoca nos Ocidentais uma emoção tão intensa que pode fazer "tombar" certos viajantes num delírio que regride espontaneamente ao regressarem ao país de origem. (...) Do século XVI ao início do século XX, muitos autores se interessaram pelos viajantes ocidentais na Índia. Mas encontramos pouco rasto escrito dos milhares de contemporâneos nossos que aí se "perderam" desde as grandes migrações romãnticas dos anos 70 - e ainda aí se perdem. Claro que há as histórias de todos os que "fizeram o caminho", mas poucas investigações sérias se ocupam deste fenómeno, no entanto bem conhecido (...): a Índia, Triângulo das Bermudas da mente. "Ele foi para lá. Desde então é o silêncio na rádio ..." E quando ele volta - se volta -, o viajante é um "repatriado das Índias". Evoca-se então a droga ou as seitas, e está tudo dito ... Porquê tão poucas obras sobre o assunto? Será porque um mito, sobretudo se está vivo, não se escreve, sob pena de perder a sua magia? Ou porque é preciso guardar segredo de um território de refúgio, neste planeta diminuído pelo "pensamento único"? Não é reconfortante sonhar um lugar "ao largo do Real", um lugar intemporal e sem condição, como pode sê-lo para as crianças a ilha de Peter Pan: um jardim suspenso na linha de fuga do nosso imaginário? Esse lugar existe e é a Índia. Os que o sonharam nunca ficam desiludidos quando a descobrem. "Mother India", como lhe chamam os seus habitantes, opõe ao mito da modernidade e ao seu corolário, o culto do trabalho, que o Ocidente parece considerar a única relegião possível, o ideal de uma harmonia do homem com o universo. Assim fazendo, interroga-nos sobre a arrogância de que damos provas ao querer impor os nosso próprios valores, quando existem tantas outras maneiras de apreender o mundo. É talvez esta interrogação, mas também a ausência de limite claro entre o Real e o Imaginário, a vida e a morte, que faz vacilar o viajante ocidental sobre o pedestal das sua certezas. A vertigem que lá se sente, mais do que em qualquer outro lugar, não será a da tomada de consciência súbita de que o que se concebe como Real poderá não ser mais do que ilusão? Não remeterá para o sentimento de pavor que o homem sente perante a fuga do tempo, face à sua inelutável finitude?

(excertos de Fous de L`Inde, Délires d`Occidentaux et sentiment océanique; Régis Airault; Trad. de Ana Isabel Mineiro; Edições Via Óptima; Porto,2006)

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